“Memórias do Cárcere”, a obra maior do prisioneiro que radiografou o ofício da literatura ao confiná-la em cubículos, dividindo espaço com a diversidade do povo marcado para morrer.
Cigarros
ordinários acesos um no outro para economizar fósforo, um restinho de iodo
para desinfetar um ferimento no dedo, papel e caneta embrulhados em pijamas e
outros trapos numa valise que carrega por todo lado, por mais de cinco prisões
para onde foi jogado junto com milhares de outros presos políticos, misturados
a vigaristas, ladrões e malandros, acompanham o escritor na sua faina: o de
escrever notas que mais tarde vão continuar a literatura iniciada nos confins
do Brasil seco e violento.
Os livros que esmerilha na sua rotina brutal são
narrados como personagens ocultos, um amontoado de letra miúda, mal alinhavadas
e passíveis de todas as correções.O
protagonista é o livro — pode ser “Angústia”, publicado em 1938, ou as
anotações que geraram mais tarde “Memórias do Cárcere”. Ele está sendo
esmiuçado nos apertos sem conta, em meio ao pavor, o horror, a miséria, a
sujeita e o escândalo.
O que lemos em “Memórias do Cárcere” é uma obra sobre
literatura, que começa a ser esboçada na cadeia. A s notas se transmutam mais
tarde, reescritas e editadas (dez anos depois de sua soltura, em 1938) para a
posteridade — foi publicado em 1953 pelo seu filho Ricardo, que mudou o título
original, “Cadeia”.Escrever
é a ação principal deste grande sertão de Graciliano. É sua obra maior, não só
pelo tamanho, mas pela ambição. Longe de ser apenas um mural do povo brasileiro
no seu habitat natural — a miséria confinada em porões de uma tirania endêmica.
É sua grande obra prima, seu “O Tempo e o Vento”, seu “Guerra e Paz”.
O Brasil
no porão, explícito, cru, diverso, assustador. Um mural humano com detalhes
íntimos de cada figura, cada gesto, cada ação. Nele, vemos que vida não é texto
que se costure, a não ser que você costure a vida como um texto.Em
“Memórias do Cárcere”, Graciliano Ramos usa técnicas de ficção para contar a
verdade. Uma delas é focar uma dúvida da percepção para iluminar o entorno,
destacar um elemento protagonista para elucidar pormenores. Invoca-se, por
exemplo, com dois vultos fixos vistos na madrugada da janela da sua cela. Não
atina o que seja e usa a dúvida para ir narrando sua insônia, feita de migalhas
e vivências.
Outra técnica é dizer que não lembra de determinados detalhes
enquanto outros se tornam abundantes.Para
tornar explícita a miséria social e política, afunda-se na baixa autoestima,
como se o personagem que cria — ele mesmo, a vítima de uma injustiça — seja o
fruto da escassez que domina o país. A família que descreve — a esposa
mesquinha e histérica, os filhos agitadores — tem perfil fictício, o que o
deixa à vontade para reforçar o papel de uma situação doméstica opressiva,
contra a qual a prisão acaba se oferecendo como uma bizarra solução. O drama se
desenrola no varejo, com vingancinhas pessoais, pequenas traições nos gestos e
palavras, ruas mal iluminadas, prédios sinistros, funções inúteis, cidadania
zerada.
O
narrador está no miolo de um drama que se expõe das bordas às vísceras, em que
a rotina doméstica é substituída pela falta absoluta de sentido do
encarceramento. Graciliano Ramos conta sua história compondo um mural literário
inspirado na memória. É o tempo todo literatura, pois os fatos se unem pelo fio
narrativo de uma improbabilidade, o mundo sendo definido pela visão amarga e
ríspida de alguém que sobrevive à revelia.Desisti
de ler “Recordações das Casa dos Mortos”, de Dostoiévski, diante dos horrores
que ele descreve da vida na prisão da Sibéria. Descubro agora, lendo “Memórias
do Cárcere”, que Graciliano Ramos supera o clima descrito pelo gênio russo ao
reproduzir as cenas infernais do porão do navio-prisão Manaus. Nem vou citar a
sucessão de cenas descritas, pois prefiro me ater a um detalhe importante. O
grande escritor, mestre absoluto da língua, era tido como personagem menor
pelos bem postados revolucionários famosos.Foi até
confundido com tira, policial disfarçado, pois entrou no navio vestindo terno,
gravata, chapéu e levando uma valise. O mal entendido se dissipou, mas ele
continuou sendo tratado como um subalterno.
É assim mesmo. Um grupo se forma,
se autodenomina líder e coloca quem quiser no limbo. Não adianta espernear.
Mais tarde, ao ser transferido de prisão, Graciliano conseguiu se ambientar
entre os chamados comunas, sempre mantendo a postura crítica, pois para ele o
importante era a crueza humana e não sua ideologia.
Uma das forças do livro é a
produção de pensamento sobre comportamentos em situações limite.Sua
autocrítica é arrasadora. Sentindo-se incompetente para viver em grupo,
enxerga-se como um outsider permanente, a passar sua bateia entre os cascalhos
das palavras tartamudeadas por ele e ouvidas nas várias cenas que se sucedem na
prisão. Uma de suas magistrais lições de literatura neste livro é a composição
de personagens. Temos um exemplo no parágrafo inicial do capítulo 9, da segunda
parte, do volume 1. Ele ensina como um mestre formata um personagem, que neste
trecho do livro tem a função de sintetizar as dissenções internas dos
presidiários políticos. “O capitão de nariz comprido esteve conosco dois ou
três dias. Nunca lhe ouvi uma palavra, mas vi-o falar em excesso a grupos
pequenos, afirmativo, açodado, a examinar os arredores com jeito de
conspirador. Sem revelar em público nenhuma opinião, estava sempre a sussurrar
um cacarejo indistinto, passeava na assistência minguada os inexpressivos olhos
de ave, erguia o bico longo, baixava-o, reproduzia movimentos sacudidos de
galinha a colher grãos. Os cochichos permanentes aborreciam-me, os gestos
ambíguos, o proceder furtivo, o conluio visível de meia dúzia de pessoas.
Afinal o tipo se sumiu. Na verdade estivera a sumir-se constantemente, a
esgueirar-se de um cubículo para outro. Findos esses manejos, bateu asas na
fuga definitiva, nem nos deu tempo de gravar-lhe o nome: para mim ficou sendo o
capitão de nariz furtivo.”Outro
exemplo é como ele descreve Agildo Barata.
No capítulo 13, da segunda parte, do
volume 1 , Graciliano traça um perfil primoroso de Agildo Barata, uma
personalidade conhecida nas leituras sobre a época das revoluções dos anos 1920
e 1930. Li “A Vida de Um Revolucionário”, de Agildo e também as páginas que a
ele se referem em Juarez Távora e outros memorialistas. Jamais tinha tido uma
ideia exata da figura até chegar a este parágrafo de ouro.“Esquisita
pessoa, Agildo. Minguado, mirrado.
A voz fraca e a escassez de músculos
tornavam-no impróprio ao comando. A sua força era interior. Dizia a palavra
necessária, fazia o gesto preciso, na hora exata. Economizava ideias e
movimentos para utilizá-los com segurança: moreno, rosto impassível, tinha uns
longes de esportista japonês: ligeiro desvio, avanço ou recuo oportuno
assegurava-lhe a vitória.
Preso, dirigira a sublevação do 3º Regimento e tão
bem se comportara que, após breve luta, estava no cassino, vigiando os oficiais
legalistas vencidos. Faltava um major e ninguém dera pela ausência dele:
provavelmente sucumbira na peleja. Súbito o desaparecido invadira a sala,
gigantesco, chegara-se ao carcereiro, uma pistola em cada mão. Às desvantagens
naturais Agildo somava então inconvenientes acessórios: apanhavam-no de
surpresa, sentado, via um sujeito enorme, em pé diante dele, manejando armas.
Estou frito, dissera por dentro. E levantara-se para morrer. O colossal major,
rubro e afobado, largara as duas pistolas em cima de uma banca e expressara-se
veemente: — Rendo-me.
Contra a força não há argumento.”O
capítulo todo é dedicado a Agildo, que, segundo Graciliano, tinha a qualidade
rara de “apreender num instante as disposições coletivas”. O episódio em que
Agildo lidera a briga por talheres decentes, em que os presos jogam as
refeições no pátio com grande estardalhaço, é de fazer saltar da cadeira.O texto
pelo avessoA
palavra, como Corisco, não se entrega. Tem a vocação da permanência, apesar de
fustigada pela passagem da fanfarra. Por um tempo, pode até colorir o discurso,
vender sabonete ou escorrer em panfletos de rua. Mas seu destino final,
conduzido sob a ética do talento, é refazer o mundo, por pior que ele seja.
Mesmo aquele mundo seco, rude, duro do interior de Alagoas, que criou
Graciliano Ramos a partir de 1892.No seu
livro “Infância”, ele conta como foi difícil aprender a ler no meio do sertão.
O pai sem paciência e a escola, ameaçadora e punitiva, forjaram na dificuldade
sua iniciação ao texto. É esta lição, de um mestre de ofício a iluminar, na
pedra, suas origens e o futuro, que ele deixa para um país ainda pobre e
perdido.“Graciliano
nos ensinou a provocar emoção discretamente, concisamente”, diz a escritora
Edla Van Steen. “Ele nos apontou uma nova maneira de escrever, através do
acabamento impecável do texto, num estilo sem adjetivos. É o pai dos
modernistas brasileiros.” Esse é um dos paradoxos do mestre: de formação
clássica, nunca tinha lido Proust e gostava mesmo era de Flaubert, Balzac,
Dostoiévski. Seu poeta predileto era Manuel Bandeira, assim mesmo de “Cinza das
Horas”. Não gostava da oralidade dos modernistas e chegou a falar mal de Oswald
e Mário de Andrade. Segundo o crítico Fábio Lucas, ele dizia que precisava
comprar uma gramática paulista para entendê-los.Logo o
“velho Graça” — expressão lembrada, numa crônica, pela sua contemporânea
Rachel de Queiroz —, tão cheio de regionalismos: “Graciliano é o mais
representativo de uma região que se universaliza”, diz Fábio Lucas. “A partir
de ‘Caetés’, seu primeiro romance, publicado em 1933, introduz um vocabulário
exclusivo do Nordeste, usando com rigor a tradição da língua.” Fábio nota que
em sua obra prima, “Vidas Secas” (1939), ele despoja as personagens com tal
riqueza de traços que estes acabam se tornando o prolongamento dos animais e da
paisagem.Outro
contemporâneo, o poeta Ledo Ivo — ex-menino prodígio que em 1933, aos 10 anos
de idade, foi cumprimentado pelo diretor de Instrução Pública de Maceió, o
próprio Graciliano em pessoa — destaca a análise psicológica do mestre, feita
num cenário geográfico e político.
“É um escritor elíptico e sumário”, diz,
“que se baseou na tradição literária. Ao mesmo tempo, ele é singular por não
ter a eloquência do perfil brasileiro. Mas o traço mais marcante da
personalidade do escritor é, segundo Ledo Ivo, o da vítima inocente, que sofreu
a punição sem culpa.“Memórias
do Cárcere”, seu alentado depoimento sobre um ano de encarceramento em 1936 —
quando foi acusado de comunista — e publicado depois de sua morte em 1953, é a
obra mais citada por Ledo Ivo: “Além do ressentimento de ter sofrido uma prisão
kafkiana, ele tinha uma visão trágica da vida. Era um bicho do mato, um
caracol. Vivia recolhido e era avesso à publicidade. Não participava da festa
do sucesso dos escritores nordestinos, como José Lins do Rego ou Jorge Amado.
Sua glória é póstuma”.Laços de
família tinham aproximado ainda mais Ledo Ivo da casa de Graciliano, que ficava
no Rio de Janeiro no início da década de 1940. Foi lá que conversara longamente
pela primeira vez, quando o escritor mostrou ao jovem poeta um artigo que este
tinha publicado aos 14 anos, sobre “Vidas Secas”.Esse foi
também o início da amizade do poeta com o filho do mestre, Ricardo Ramos.
“É
curiosa a relação entre pai e filho”, diz a pesquisadora Yedda Dias Lima, do
IEB — Instituto de Estudos Brasileiros, da USP. “Ambos morreram no mesmo dia,
23 de março, vítimas da mesma doença, o câncer, e deixaram, cada um, um livro
não concluído.” O pai deixou “Memórias do Cárcere” e o filho, que morreu em
1992, quando se preparava para coordenar as festividades do centenário,
“Graciliano, um Retrato Fragmentado”, lançado pela Siciliano.A polêmica
que se seguiu à publicação do livro póstumo de Graciliano está relacionado
diretamente aos 3500 originais que deixou em poder da mulher, Heloisa e se
encontra no IEB desde 1982, sob a responsabilidade de uma equipe coordenada por
Yedda. O crítico Wilson Martins chegou a dizer que “Memórias do Cárcere” foi
corrigido pelo Partido Comunista.A
fidelidade ao que realmente acontece, o sentido de retidão, a sua recusa à
mentira, a sua reflexão profunda sobre a realidade faz de Graciliano um prato
cheio para estudiosos como o professor de Literatura Comparada da USP, João
Luís Tafetá (1946-1976), autor de um estudo sobre a riqueza e complexidade da
obra do escritor. “Ele é a sua própria experiência”, disse Lafetá. “Nele, o
fundamental é o modo honesto de contar. O escritor está preso ao real e longe,
portanto, da falsidade.”
O trabalho, tese de livre docência, enfoca três
ângulos principais, que se comunicam internamente. O primeiro é literário,
examina as técnicas das formas de narrativa, onde se sobressai o texto
neorrealista que acaba transcendendo os rótulos.O segundo
é psicanalítico, que levanta um oblíquo complexo de Édipo em “Caetés” e dois
triângulos amorosos: um imaginário em “São Bernardo” — no qual os ciúmes do
anti-herói Honório leva a mulher ao suicídio — e outro real em “Angústia”, no
qual Luis da Silva, outro anti-herói, acaba matando o rival. Para Lafetá,
Graciliano diminui suas personagens e revela os cortes que sofreu ao longo da
vida. Ele gosta de citar um trecho de “Infância”: “Herdei a vocação para as
coisas inúteis”.O
terceiro enfoque é da linguagem da ironia, que basicamente é uma inversão e
procura dizer o máximo num mínimo de palavras.
Lafetá estuda a ética da
construção da linguagem de Graciliano, raiz da sua exigência e contenção. “Ele
cortava tanto seus textos a cada nova edição, que a esposa advertiu que
acabaria apenas com páginas em branco”, lembra Fábio Lucas. Yedda conta
detalhes da sua técnica de escrever: “Colocava um cigarro ao lado do outro,
fora do maço, para não perder tempo. Desenhava uma letra caligráfica, que
descia a detalhes da perna da letra a. Quando cortava, passava uma régua em
cima e abaixo da palavra, riscava no meio e até, ás vezes, um cigarro aceso,
para não haver dúvidas”.Descoberto
pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, graças aos seus relatórios quando foi
prefeito em Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos foi traduzido em 32 línguas e
seus livros venderam, até 1992, cinco milhões de exemplares, só no Brasil.
Alguns deles, como “Vidas Secas”, “Insônia”, “São Bernardo” e “Memórias do
Cárcere”, viraram filmes. Ele destacou-se por virtudes que por um tempo foram
esquecidas no Brasil. Hoje elas ressurgem como um exemplo para um país que
precisa desesperadamente reencontrar seu rumo.