OS 126 ANOS DE GRACILIANO RAMOS
Os 126 anos de
Graciliano Ramos
Graciliano Ramos (1892- 1953), ao
escrever, o escritor se preocupava com a situação de pobreza e buscava sempre
valorizar a língua do povo brasileiro.
Nunca se contentou com a ficção dos livros. Prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, militante do Partido Comunista e perseguido pela ditadura Vargas, o escritor, que completaria 126 anos em outubro de 2018, teve uma vida tão pulsante quanto sua produção literária.
Sua escrita é extremamente moderna, na medida em que reflete sobre si mesma. A luta política teve um lugar central na vida dele, mas se deu de maneira ortodoxa. Ele se filiou ao partido comunista, mas sempre se recusou a fazer de sua arte um instrumento de pregação ideológica.
Nunca se contentou com a ficção dos livros. Prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, militante do Partido Comunista e perseguido pela ditadura Vargas, o escritor, que completaria 126 anos em outubro de 2018, teve uma vida tão pulsante quanto sua produção literária.
Sua escrita é extremamente moderna, na medida em que reflete sobre si mesma. A luta política teve um lugar central na vida dele, mas se deu de maneira ortodoxa. Ele se filiou ao partido comunista, mas sempre se recusou a fazer de sua arte um instrumento de pregação ideológica.
PROFª VERA DIAS
Em 27 de outubro de 2018,
Graciliano Ramos – um dos maiores escritores brasileiros – completaria 126 anos. Sua prosa é marcada na forma por um extremo rigor, e no conteúdo por uma
crítica à ordem social estabelecida. A partir de sua realidade mais imediata –
o estado de Alagoas –, ele criava literariamente personagens e situações que se
abriam a questões do gênero humano; assim como o grandioso escritor russo Leon
Tolstoi, para ser universal Graciliano cantava sua aldeia. Através de seus
romances e memórias ele nos proporciona um conhecimento do mundo dos homens –
das suas relações, de seus sentimentos – no Brasil, além de nos trazer –
durante a leitura de suas obras – um grande prazer estético.
Graciliano, ao escrever, se
preocupava com a situação de pobreza e buscava sempre valorizar a língua do
povo brasileiro – era intransigente com relação à boa utilização do português.
Esta sua indignação também se expressava em sua postura de vida, caracterizada
por uma honestidade incorruptível, e em sua prática política, primeiro como
prefeito da cidade de Palmeira dos Índios depois em sua militância comunista.
Mais que um escritor erudito, objeto de vários estudos e análises literárias,
Graciliano deve ser amplamente divulgado e conhecido pelo povo brasileiro, pois
é um dos seus mais valorosos patrimônios.
A
elitização da cultura letrada no Brasil ainda o deixa restrito a pequenos
grupos de especialistas dentro das universidades. Há, contudo, diferentes
iniciativas que buscam romper estas cercas do conhecimento; é neste sentido que
brindo a oportuna reedição – revista e ampliada – de O velho graça:
uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes, pela Boitempo
Editorial.
Esta biografia – calcada em ampla
pesquisa sobre o Brasil da primeira metade do século 20, sobre a vida e sobre a
obra do autor – esquadrinha o percurso de vida Graciliano Ramos, numa escrita
ao mesmo tempo ágil e profunda, desvelando a profunda coerência do “ser humano
alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância (…); o militante comunista
(…); o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o
homem tudo pode na Terra – até mesmo construir a felicidade.” Um dos aspectos
mais louváveis deste trabalho é o de buscar compreender a trajetória de
Graciliano em estreita relação com o desenrolar das transformações econômicas,
políticas e sociais pelas quais o Brasil passou na primeira metade do século
20.
Como adverte Carlos Nelson Coutinho
no prefácio à primeira edição da obra, esta é uma “biografia a que não é
biografista. Ou seja, em nenhum momento Dênis de Moraes utiliza o vasto
material biográfico de que dispõe para tentar explicar, através dele, o
universo estético de Graciliano Ramos.” Apesar disto, podemos acompanhar as
situações nas quais nasceram os diferentes escritos de Graciliano, desde sua
formação intelectual autodidata em Alagoas, suas leituras dos clássicos da literatura
francesa e russa, seu primeiro contato com as obras de Marx e Engels e a
atenção com a qual ele acompanhava os desdobramentos da Revolução Russa e das
ebulições sociais na recém-proclamada república brasileira; os seus primeiros
artigos para jornais até seu mergulho no universo da produção literária naquilo
que seria uma das suas principais marcas como escritor: uma refinada e longa
“labuta estética”, um constante dilapidar de seus escritos.
Dênis
de Moraes retrata o ambiente cultural progressista alagoano de onde surgem
vários dos romancistas da “geração de 1930” – entre eles, Rachel de Queiroz,
Jorge Amado, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Amando Fontes e o
próprio Graciliano – cuja principal característica era uma marcada crítica
social a partir de temas regionais, no caso as duras condições de vida do povo
no nordeste brasileiro. Nota- se, neste grupo, a influência do pensamento de
esquerda, assumidamente declarado em Rachel de Queiroz – então vinculada ao
trotskismo – e em Jorge Amado – ligado ao Partido Comunista do Brasil. A
presença destas ideias nas preocupações de Graciliano pode ser notada a partir
de seu segundo romance, São Bernardo – uma das mais profundas
obras sobre a questão agrária no Brasil.
O
velho graça tem como fio condutor a constante
luta de Graciliano Ramos na tentativa de sobreviver como escritor – segundo o
próprio, algo possível, no Brasil, somente aos tabeliães e jornalistas –
passando por dificuldades financeiras a vida toda; sua constante luta por uma
sociedade melhor – que lhe rendeu uma longa estada nos cárceres do Estado Novo
de Getúlio Vargas – primeiramente como um homem progressista depois como
convicto militante comunista.
Este livro de Dênis de Moraes
contribui para que Graciliano Ramos extrapole os ambientes acadêmicos e
especializados, pois o retrata não apenas como um dos maiores literatos
brasileiros, mas, sobretudo, como pessoa inigualável, cuja perspectiva sempre
foi guiada por um profundo sentimento de indignação à miséria imposta ao povo
brasileiro e por estar sempre com o “coração aberto aos homens”.
Leitura Complementar
Graciliano Ramos - 120 Anos - Revista Estudos Avançados , Nº 26 (76) 2012.

