A MADALENA DE GRACILIANO RAMOS

A Madalena de Graciliano Ramos


Silvana de Gaspari
                                                    Professora/Universidade Federal de Santa Catarina
“Cada vez que nasce um grande prosador, nasce de novo a linguagem. Com ele começa uma nova tradição. Assim, a prosa tende a confundir-se com a poesia, a ser ela mesma poesia.”
Octavio Paz
É fácil concordar com os que dizem ser a obra de Graciliano Ramos poesia, e mais poesia ainda é seu romance São Bernardo. Um romance seco, enxuto, rude como a alma daqueles que não aprenderam ou não podem amar, sombrio como o pio da coruja.
O Brasil, na década de 30, muda,  e com ele muda a literatura brasileira. Surge, nesse momento histórico, um tipo de romance denominado muitas vezes de “romance social”, de “romance do nordeste”. É uma fase importante, pois parece representar uma pré-consciência do subdesenvolvimento do Brasil. Privilegia-se, naquele momento, a ideologia, e não mais a estética. O Romance de 30 tentará reordenar, reexplicar os problemas do mundo, e principalmente os problemas brasileiros da época. O peso dessa busca recairá na tradição naturalista na qual vigora a verossimilhança. O que pretendem os autores dessa vertente literária é mostrar o mundo exatamente da forma como ele se apresenta. Em São Bernardo, uma das faces desse problema, ou seja, de criar uma literatura verossímil, se traduz em como um sujeito como Paulo Honório pode escrever um romance contando a história de sua mulher morta: Madalena
Pensando no problema do narrador de São Bernardo, e na questão da verossimilhança, procurada no momento literário no qual está inserido Graciliano Ramos, e, partindo dos comentários de Antonio Candido sobre a obra e seu autor, podemos concordar com a colocação de alguns críticos que dizem ser toda obra de Graciliano Ramos memorialista, principalmente pelo fato de o autor ter sempre a necessidade de testemunhar sobre o homem, ou melhor, de testemunhar sobre a trajetória do homem  diante do nada.
Assim, na perspectiva do testemunho, é que este trabalho se propõe a traçar a trajetória de construção literária da personagem Madalena. A proposta é não vinculá-la a uma corrente ideológica, como o fazem muitos críticos ao analisar a narrativa em questão, mas sim percebê-la como elemento humano, que não necessariamente reflita a oposição entre o  “bem e o mal”, entre Paulo Honório e Madalena. Aqui, o interesse é simplesmente perceber Madalena como sujeito, responsável por suas escolhas e vivências, por seu destino trágico para alguns, inevitável para outros, inserindo-a na tradição naturalista e dando-lhe a atualidade de um personagem que toma vida em um momento histórico de transição tão importante literariamente como os anos 30 no Brasil.
São Bernardo foi lançado em 1934 e é o segundo romance escrito por Graciliano Ramos. É com este livro que o autor passa a ser considerado um dos maiores romancistas da literatura brasileira. O escritor, na narrativa em questão, é extremamente cuidadoso com a linguagem usada e tenta aproximá-la da linguagem falada, reivindicação de muitos escritores contemporâneos a Graciliano Ramos.
A história do romance se passa na década de trinta e o protagonista, Paulo Honório, conta, então, com cinquenta anos.  A trama mostra os dramas e conflitos internos vividos pelo personagem e que são inexplicáveis. Nem a posse de São Bernardo, fazenda que lutou tanto para conseguir e que é o objetivo de sua vida, nem o casamento com a professora Madalena parecem dar-lhe o sossego que tanto almeja. Assim, resta a escrita como forma de tentar obter a paz tão desejada.
Após um plano de trabalho frustrado, descrito nos dois primeiros capítulos, Paulo Honório decide escrever o livro sozinho, pois começa a perceber que o que ele tem na memória não pode ser compartilhado com ninguém. Então, ao ouvir o pio da coruja, o personagem deixa de lado os preciosismos da língua escrita e inicia a narrativa como uma necessidade desencadeada por um elemento da natureza.
Muitos críticos apontam São Bernardo como uma narrativa que sintetiza o que se usa chamar de “Romance de 30”. As análises apontam quase sempre para um narrador, Paulo Honório – homodiegético - e sua antagonista, Madalena. Além disso, a afirmação mais comum é a de que as duas personagens representariam questões ideológicas muito ressaltadas na época. Mas, as diferenças dos personagens de Graciliano Ramos, em São Bernardo, dos outros Romances de 30, começam no fato de estes se conduzirem sempre por situações fechadas que são típicas das tragédias, onde o final parece previsível. Além disso, vemos, ao longo da narrativa, alguém que sempre dominou, Paulo Honório, ser dominado pela paixão por Madalena.
São Bernardo é uma obra grande principalmente por se destacar em sua originalidade. Sua estrutura tem a cara de Paulo Honório: curto e grosso, dono de tudo e de todos, inclusive da história e das personagens que a compõem. Sua relação com o próximo é de interesse financeiro. Tal personagem só percebe sua limitação de posse quando pensa na morte e na necessidade de preparar um herdeiro. Neste ponto, ele começa entender  que, para isso, teria que ter uma mulher. A escolha do protagonista em se casar com a professora Madalena é o que o leva a seu fim trágico, é uma espécie de linha fatal conduzida pelo sentimento: a paixão o faz não mais perseguir seu fito na vida, que é a posse de São Bernardo.  O homem que queria casar por mero interesse, acaba casando-se por amor e, efetivamente, não consegue mais controlar sua vida. Essa situação leva Paulo Honório ao ciúme. Mas ciúme da conduta de Madalena ou dela como mulher humana e sensível à causa do próximo?
Paulo Honório e Madalena, apesar das diferenças, casam-se, convivem alguns anos e chegam a ter um filho, situação que leva o protagonista ao ciúme sem limites e à solidão, e Madalena à depressão, loucura e morte. O livro caracteriza-se como uma obra fechada pelo fato de, ao final, Madalena estar morta e nada poder ser feito para se resgatar a relação ou alterar os caminhos do presente. Paulo Honório é o herói trágico do romance moderno, diferente, claro, do herói da tragédia grega, já que vive em um mundo aberto, infinito e ilimitado no qual se move. Em um romance como São Bernardo, de linhas realistas e naturalistas, o fatum é decorrente de algumas situações determinantes, identificadas pelo próprio personagem ao longo do texto. Paulo Honório é um herói trágico e fadado a um fim igualmente trágico por ser alguém que, segundo sua própria narrativa, não compreende ninguém, só vê à sua frente lucro e acumulação, seus diálogos são monólogos, gritos, que não visam à comunicação.  O herói trágico é, então, permeado de solidão, o que o impossibilita de comunicar-se, de promover sua integração com o mundo e com os outros seres humanos que ali vivem. Todos são tratados por ele como se fossem inimigos. Nesta perspectiva, os diálogos do romance parecem ser todos de oposição. Ninguém conversa pelo simples prazer de conversar, mas para ferir seu oponente. E quando a conversa é por prazer deve ser interrompida pois atrapalha o bom andamento das coisas. A incomunicabilidade é tal que, na última conversa entre Madalena e Paulo Honório, cada um fala de uma coisa, produzindo a imagem de dois cegos, ou seja, de pessoas que não se enxergam e por isso monologam.
As personagens de Graciliano Ramos, mais que agir, pensam, conversam consigo mesmas. Seus protagonistas se destacam da produção literária que privilegiava a criação de tipos regionais por seguirem o caminho da reflexão íntima. Paulo Honório quer escrever um livro sobre Madalena, sua mulher, mas acaba, entre ficção e não-ficção, escrevendo um livro que o descreve, corpo e alma. O protagonista tem dois objetos na vida: o primeiro possuir São Bernardo e o segundo possuir Madalena, que deverá se transformar em um objeto seu, dando-lhe inclusive o herdeiro que tanto deseja. Dessa forma, o primeiro núcleo esboçado na obra é o formado por Paulo Honório e São Bernardo e o segundo  por Paulo Honório e Madalena. A narrativa, a partir de então, muda de rumo. Madalena: bonita, loira, professora e com idade por volta dos 20 e os 30 transforma-se na verdadeira busca de Paulo Honório.
Graciliano Ramos, como escritor obstinado e cuidadoso que era, buscou sempre a forma justa, precisa de dizer as coisas. Suas expressões convencem na mesma medida que provocam emoções fortes em quem as lê. Madalena quase não fala. Mas por quê? Porque sua prosa destoaria da prosa de Graciliano, seria uma fala permeada de sentimentos, de vida interior, inexistente no senhor de São Bernardo, pois Paulo Honório está grudado ao chão em todos os sentidos. Madalena, em seu mundo particular, almeja o impossível, sonha momentos de igualdade e de solidariedade entre os homens.
Parece ser a figura de Madalena quem permeia e dá ordem a toda a narrativa do livro em questão, sendo o ponto crucial a dor pela sua morte. Madalena, mesmo depois de morta, é centro irradiador de inquietações e perguntas. Sua personagem traz conversão a Paulo Honório: após conhecê-la, ele é introduzido à beleza, à conversação e à escrita. Até então, ele só conhecia a lei da troca: os outros valiam só o que podiam lhe oferecer. A partir de Madalena, esta lógica começa a ser quebrada e Paulo Honório começa a perceber que a felicidade, ou a ruína, pode vir do imprevisto, do belo, do agradável, sem que necessariamente haja um interesse material de compensação. A morte da mulher lhe serve de impulso para que ele comece a enxergar uma nova ética da vida: a de se compreender e procurar entender o outro.
Como Paulo Honório não conheceu nada além da ganância, das trapaças, da mesquinhez da vida, o que lhe assusta em Madalena é que ela se doa, se interessa espontaneamente pelos outros, é altruísta, seu ideal é humano verdadeiramente. A esposa de Paulo Honório é, segundo o ponto de vista de alguns críticos, personagem central da narrativa, pois, mesmo que somente delineada ao fundo da história, é personagem que não se esquece, já que, mesmo sendo sombra, sua força é a de um fantasma, que luta contra um marido centralizador e egocêntrico. Quanto mais é dominada e subjugada, mais cresce seu fantasma e assombra Paulo Honório.
Madalena é uma personagem reveladora no sentido em que aceitou casar-se com Paulo Honório, mesmo sem namoro, por ver nele um homem viril, sensual. Foi seduzida fisicamente por ele. Assim, nossa leitura vai além dos que vêem neste fato o capitalismo atraindo o socialismo e o subjugando, ela perpassa esta vertente sociológica e histórica e coloca homem e mulher em sua origem, no rito das cavernas. E não é difícil conceber Madalena como atraída pelas qualidades rústicas do marido, basta ver em seu relato final que, ao longo de sua vida, nunca foi protegida ou guiada por mãos masculinas, fez sempre seus caminhos, condição social extremamente difícil para as mulheres de sua época. Será que Madalena também não se sentia cansada da solidão? Será que não desejava o ombro de um homem para deitar? Será que não queria também alguém para decidir por ela? Será que ela não via em Paulo Honório a possibilidade da continuidade da vida? Madalena acreditava que o convívio do casal mudaria seu marido. O que não é de todo errado, pois Paulo Honório mudou, só que não da forma romântica desejada e esperada por Madalena. O senhor de São Bernardo, que sonhava com um útero, acabou ganhando um fantasma, que o acompanharia até o final de seus dias. Se as intenções de Paulo Honório não são das melhores, o que dizer de Madalena, que acreditava vencer o mal pelo coração, mudar o homem com o qual convivia, convertê-lo a seu estilo de vida e crença? Madalena, a uma certa altura da narrativa, também se transforma, mas pelo arrependimento, percebendo principalmente que o caminho escolhido por ela não tem volta. Sua submissão, sujeitando-se aos desmandos do marido, nos leva a acreditar que sua doçura é mais cruel que a dureza de Paulo, pois a leva ao sacrifício que perseguirá a personagem até o fim de seus dias. Seu desejo de efetivamente transformar o marido não é acompanhado de ação, por isso ela aceita o sacrifício, mostrando-se frágil e pouco inteligente em sua vida prática.
“ Eis que o vencido desnorteia um vencedor porque foi capaz de levar sua debilidade a um extremo que o poderoso não pôde compreender. Há uma vida misteriosa nos objetos submetidos: eles são nossos, e, no entanto, nos escapam.” (LOPES, p. 4)
A partir do casamento com Madalena e o suícidio desta, a solidão de Paulo Honório se torna evidente e ele então percebe o vazio de seu mundo. Assim, nem Madalena nem Paulo Honório se realizam como seres humanos. A solidão em Madalena decorre de seu caráter pioneiro, por ser ela uma revolucionária. É a personagem portadora de uma ilusão, de uma esperança de poder mudar algo. Ao casar-se com o protagonista, ela alimenta uma certa ilusão, que se transforma em tragédia com seu suicídio, quando se vê impotente diante dos fatos.
Concluindo, acredito ser possível afirmar que Paulo Honório e Madalena são duas personagens vencidas pelo mundo e pelas escolhas que fizeram. Não só o protagonista é iludido por suas escolhas; mas também Madalena que, tencionando dar uma vida mais tranquila à tia e tendo ela mesma uma vida mais “confortável”, se depara com situações que vão além de suas escolhas ideológicas e políticas. Os dois encontram pela frente os próprios sentimentos, os quais não conseguem dominar. São personagens derrotados, cada um a seu modo, vencidos pela própria vida que escolheram.
No Brasil, é Graciliano Ramos quem melhor representa nossa realidade fragmentada, onde personagens buscam um verdadeiro sentido para a vida. E São Bernardo nos apresenta uma completa reviravolta na obra deste autor: é a obra mais representativa e autêntica do realismo brasileiro. O que se opõe em São Bernardo não são dois personagens - Paulo Honório e Madalena - mas dois estilos de vida, a vida mesquinha e solitária versus a vida com sentido, voltada para a comunidade, que procura superar a solidão do mundo moderno.
     Neste momento, podemos pensar no testemunho dado por Paulo Honório como necessário, pois é por sua voz, ou escrita, que Madalena continua a viver. Continua a viver porque teve forças para tentar mudar e, mesmo vencida, conseguiu enxergar no seu sacrifício a possibilidade da transformação do homem que ela tanto amou. 

Referências Bibliográficas
LOPES, C. Graciliano Ramos & São Bernardo. www.revista.agulha. Nom.br/ag44ramos.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Record, 2004.

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