VIDAS SECAS 80 ANOS - REPORTAGEM ESPECIAL DO ESTADÃO DE SP- INTRODUÇÃO E CAP I






Vidas Secas, 80 anos
No aniversário de publicação da mais importante obra de Graciliano Ramos, ‘Estado’ percorre 450 quilômetros em busca do retrato do sertanejo do século 21

Texto: Felipe Resk e Guilherme Sobota / Fotos: Daniel Teixeira / Ilustração: Bruno Ponceano
25 Agosto 2018 | 12h00

Introdução


 O romance Vidas Secas, do escritor Graciliano Ramos (1892-1953), acaba de completar 80 anos de publicação. Ao longo das décadas, a obra, fundamental da literatura brasileira, tornou-se universal - e continua atual. O interior que sofre mergulhado na seca, a falta de oportunidades em um País desigual, as injustiças sociais que se perpetuam e o sonho de imigrar em busca de uma vida melhor se mantêm - não apenas no Brasil, mas também em muitas partes do mundo. À procura de outras vidas secas, o Estado se lançou no desafio de percorrer 450 quilômetros do interior do Nordeste, entre os Estados de Alagoas e Pernambuco.

O sertão sem nomes de Graciliano é onde se mora sob taipa e, facão a tiracolo, o vaqueiro pisa em ossada de boi. Os sertanejos dormem em jirau, enganam-se nas contas do patrão, sonham em ter cama de vara. Para comer, aproveitam na panela o papagaio que já morreu de fome.

Agora, o sertão é de Pelé e Branca, agricultores, resistentes da seca. De Dayse, dona da lan house, que anuncia passagem para viajar para fora, mas se vê obrigada a permanecer. De sertanejos que foram embora, de outros que voltaram. Ou de Thamires, estudante, que não vê a hora de se mandar para São Paulo.

Propriedade onde morou Graciliano Ramos em sua infância na zona rural de Buíque, cidade do interior de Pernambuco Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Urubu à beira da Rodovia Graciliano Ramos (AL-210) no município de Quebrangulo, interior de Alagoas, onde nasceu o escritor Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Diga-se: o percurso não é só de seca. Faixas de terra cobriram-se de verde. Às margens de rodovias asfaltadas, casas formam um mar de cisternas e antenas parabólicas, boa parte delas equipada com Wi-Fi. Nas cidades, ainda muito católicas, existem cafeterias gourmet e academias de jiu jitsu. Com agricultura e pecuária protagonistas da economia, no entanto, a região segue refém das chuvas.

Nos primeiros cinco capítulos, o leitor descobrirá personagens que traduzem o quão atual é a obra de Graciliano. A vida na roça, a violência, os programas sociais do governo, a baixa escolarização da população, a gravidez precoce e a questão da terra misturam-se à seca, à falta de oportunidades, às injustiças sociais e ao sonho de imigrar. As histórias também contam como a memória de Graciliano é (ou não) preservada, nos municípios onde ele nasceu, passou a infância, viveu e trabalhou, tanto pela população como pelos governos locais.

Para comentar o legado de Vidas Secas para a literatura, o Estado entrevistou intelectuais, pesquisadores e familiares do escritor, entre eles, Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano. “Se vivo, seria uma voz que continuaria gritando, ressaltando e colocando em foco as mazelas da vida brasileira, que são muitas e vêm se acentuando”, diz Ramos Filho.

Na sequência, o diretor de fotografia do filme Vidas Secas (1963), Luiz Carlos Barreto, fala sobre o impacto da obra, que ecoou em Cannes na época e revolucionou o cinema nacional. Na entrevista, Barreto também compartilha lembranças das filmagens na região. Acompanha o capítulo uma análise de Luiz Zanin Oricchio.

Capítulo 1 - Pelé, Branca e os Meninos


Com os pés fincados em Minador do Negrão, que abrigou o set de filmagem de ‘Vidas Secas’, casal tira da terra o sustento da família e cria os filhos cuidando do curral do patrão e revendendo produtos de beleza




Texto: Felipe Resk / Fotos: Daniel Teixeira / Ilustração: Bruno Ponceano
25 Agosto 2018 | 12h01

Os quatro sertanejos andam espremidos em cima da moto. Pelé, espinhaço vergado para frente, guia em marcha lenta na estrada. Vem da zona rural, margeando capões cobertos de mato e fazendas despovoadas pela seca, a caminho do centro. Usa um boné laranja, em vez de capacete. A mulher e as crianças nem boné usam.
Morno, o sol às 10 horas não é de fustigar a visão. O sertanejo parece confortável de camisa do Corinthians, descosturada na manga, e bermuda tipo surfista. Na garupa, Branca apoia o menino mais novo sobre a coxa, enlaçando-o com o braço. A mais velha, encangada entre os pais, gargalha alto e feliz no pé do ouvido.
“Eita, menina lesa”, Pelé repele. “Hum!”
Passam um jumento, amarrado à cerca, sem ligar. Desde 2017 não há notícia de bicho morrendo em Minador do Negrão, sertão de Alagoas, localidade que abrigou o set de filmagens do filme Vidas Secas. Aquele inverno foi de chuvas à vontade, as campinas cobriram-se de verde. Folhagens de algarobas, juazeiros e angicos criaram manchas na paisagem, apagando a vermelhidão. Com água nos açudes, os urubus, voando em círculos altos, têm poucos olhos para ambicionar.
Pelé era esperado na casa da sogra. Ia cortar e salgar charque porque a coitada, doente, não podia. A pobre começou a definhar após o carro da filha e da neta bater de frente na volta de Palmeira dos Índios, a 35 quilômetros de distância. Viraram anjo havia dois anos, indicava o banner com a foto das duas, exposto ao lado de um chapéu de vaqueiro na sala da velhinha. Piorou depois do AVC.
Seguindo trajeto, a família nota um carro dar meia volta na porteira de um sítio, ganhar estrada e ficar em seu encalço. A placa era de fora, com certeza gente desconhecida. É Branca quem percebe primeiro.
“Ai, meu Deus, acho que tão seguindo a gente”, diz, virando, de quando em quando, a cabeça para trás. Ressabiada, a mulher aperta o caçula contra o corpo. A menina mais velha arregala os olhos. Para de sorrir.
Pior hora para estranhos. No amanhecer, outro agricultor fora baleado ninguém sabia por quem. O crime correu de Whatsapp em Whatsapp, até o sindicato dos trabalhadores rurais trancou as portas. Três tiros, espantaram-se os moradores. O corpo ficou caído perto das muletas que o homem usava para manquejar na lavoura. O comentário acabou se espalhando: “Ou transação política ou tirou liberdade com mulher errada”. Era aleijado mas gostava de ousadia, o traste.
Lembrando do infeliz, Pelé resolve desacelerar a moto e vê o carro vermelho fazer o mesmo. Sem dúvida, perseguição. “A gente vai morrer?”, pergunta a mais velha. Em silêncio, o pai embica no primeiro posto de gasolina. Os forasteiros dobram junto.
Nada de pistoleiros, só queriam informação. “Ave Maria, moço, desse jeito tu me mata de susto”, Branca protesta, levando a mão à cabeça, aliviada. A filha, com o rosto virado para o céu, solta uma gargalhada.


Minador do Negrão é um município minúsculo, com 5,4 mil habitantes: menos de 3% da população de Itaquera, bairro da zona leste de São Paulo. Como em outras áreas da região, moradores sobrevivem, via de regra, do roçado. Isso quando não são expulsos por estiagens
cada vez mais longas.


Aos 34 anos, Pelé, a pele branca, os olhos claros, não quis trocar o sertão nem quando a seca apertou antes do aguaceiro de 2017. Pior até que a de 1970, avaliam alguns. A cisterna de 16 mil litros, oca, era abastecida uma vez por semana por caminhão-pipa, a custo da prefeitura. Chegava carregado de água salobra. À noite, Branca lembrava das palavras do padre Damião e pedia que Deus, no controle, mandasse chuva.
O pasto ressecou, barragens viraram barro. O casal criava quatro rês na época. Inevitavelmente os bichos foram ficando magros, a língua estirada, arquejando. E entre ração do gado ou comida dos filhos não havia o que escolher. “A necessidade falou mais alto”, relata a mulher. “Ou vendia tudo ou perdia para o mundo.” Naquelas condições, nenhum comprador pagaria o justo: foi metade do preço.
Com pouca idade, Pelé já sabia cultivar feijão de corda, silar o milho, tanger boi. Fez até a antiga 4ª série (atual 5º ano do ensino fundamental), mas só escreve o próprio nome: Edvaldo Moura da Silva. Fora da escola, aprendeu a ler os sinais da seca. “Quando a palha vai enrolando assim, ói, tem de ficar esperto”, ensina. “Mas o que vier a gente aguenta. Tem de aguentar, né?”
Ex-babá da filha do atual prefeito, Branca (ou Joseilda Domingos Moura, de 28 anos, no registro) dá razão ao marido. “Eu tenho minha mãe veínha, meu pai veínho. Saio nunca”, diz. A primeira barriga veio na 8ª série. Estava atrasada, tinha 17 anos. Adulta, até conseguiu retomar os estudos mas não pode descuidar dos afazeres domésticos e das crianças: Laisa Milena, de 10 anos, e Ícaro Bernardo, de 3.

 
Morando na propriedade do patrão, a família não tem de se preocupar com luz ou aluguel. A casa - sem pintura, com teto desforrado e antena parabólica - é vizinha do chiqueiro. O sujeito teria prometido repassar aos sertanejos três tarefas de terra, o equivalente a pouco mais de um campo de futebol. Falta arranjarem o dinheiro da escritura. “É um homem bom”, o casal defende.
Responsável pelo curral, Pelé levanta às 2h30 para ordenhar vaca em troca de R$ 270 por semana. Trabalha com o irmão, tratoreiro. Beneficiária do Bolsa Família, Branca recebe R$ 170. Tenta tirar o extra revendendo produtos da Hinode, franquia de perfumes e cosméticos voltada para classes C e D, que vai buscar de moto em Arapiraca, a uma hora de distância. “Difícil é o povo pagar, mas, às vistas de outras cidades, isso aqui é uma bença.”
O número de rês varia sempre, mas nunca passa de meia dúzia. Recentemente, a família vendeu uma novilha para pagar exame médico da mais velha, que sofre de desmaios. Outro dia, foi o caçula quem deu susto ao usar o banheiro, separado da casa. “Começou a gritar de dor, não parava de chorar”, conta a mãe. O pediatra falou de intolerância à lactose e receitou um substituto para o leite de vaca, R$ 90 a lata.
Eram três latas por semana: o salário inteiro de Pelé. “Ele gosta muito de gogó (leite na mamadeira). Ou dava para ele ou faltava para gente, né?”, diz Branca. O jeito foi levar no rezador.
“Já tentaram leite de cabra?”, o homem sugeriu. “Tu pega 2 litros e bota mais 2 de água, dá para uns três dias.” O casal fez cálculos, não era má ideia. Tirou R$ 400 no crediário, comprou Estrelinha e Estrela Cadente. Uma beleza.


“A renda não é lá essas coisas, mas fome não passa”, Branca comenta. “Pobre é o diabo, o cão, eu só não tenho condição financeira chique.”

A fazenda fica a poucos metros da pista, por um caminho vicinal. Na porteira, três vira-latas, aos saltos, recepcionam os sertanejos balançando rabo. São Billie, Spike e Puff – tudo em inglês, porque nome de bicho do mar está fora de moda. O gato fica à espreita, as patas traseiras arreadas, sem movimento. Branca chega da casa da mãe, a velhinha de luto, derrama água da cisterna no balde e vai à cozinha preparar almoço.



O pai de Pelé, gerente da fazenda, também vive nas terras e é quem paga o Wi-Fi. As crianças aproveitam o sinal para estragar os olhos em clipes de batidão no celular. “Olha aonde eu vim parar / Mais uma vez, o coração se apaixonou pela pessoa errada”, canta MC Bruninho, de 11 anos.
A menina mais velha quer ser youtuber, antes de ser veterinária. “O moço vai postar as fotos na internet, é?! Eba, vou ficar famosa”, diz, animada. “Vou gravar um vídeo assim, ó: ‘Ô, Michel Temer, paga a aposentadoria do meu gatinho, que ele é aleijado’.” E sai gargalhando.
“Eita, menina lesa”, Pelé repele. “Hum!”
Galinhas passeiam livremente no terreiro. Palhas de milho, esticadas, secam para virar vassoura. “Vá calçar a sandália, mó de espinho”, Branca recomenda ao mais novo. O caçula para no caminho, se entretém com a bicicleta do Ben 10, a rodinha direita quebrada. Volta com um pacote de bolacha para as cabras, presas no chiqueiro.
Muitos brinquedos estão espalhados no terraço. Na sala, o vaqueiro liga a televisão na Record e espera comida sentado no sofá. As crianças pulam no colo, coxas do pai servindo de travesseiro. Lá ficam.


No quarto do casal, um adesivo da Minnie e dois quadros de Sandy e Júnior, um deles com a moldura partida, enfeitam a parede de frente para cama. O ventilador, desconjuntado, fica preso por arames na ripa do teto. “Quebrou no meio, aí a gente pendurou”, Branca comenta. “Funciona direitinho.”
Sem uso, o berço virou armário desde que o caçula foi dormir com a irmã no outro aposento. Pintado de azul-bebê, o quarto das crianças tem uma TV de 14 polegadas, mosqueteiros e um palhaço Patatá de pano, imenso, pregado perto da janela, sem o Patati. Em gaiolas diferentes, há uma rolinha e um papa-capim.
Vários carrinhos de plástico e ursos de pelúcia ficam amontoados sobre o guarda-roupa. Já nas prateleiras estão as bonecas, bebezões e Barbies, quase todas presentes de tios e tias. A maioria nunca saiu da caixa. Não pode brincar, para não estragar.
O menino não vai à escola. A mais velha está no 5º ano, mas ainda engatinha na leitura. “Só sei soletrar”, diz, constrangida, sem conseguir ler um cartaz da parede. “A professora é muito ruim. Hum!”



Feito à lenha - o gás está caro -, o almoço demora. O mais novo reclama fome para a mãe. “Quem mandou dar toda bolacha para as cabras?” Inquieta, a menina quer mostrar o book que fez aos 5 anos, vestida de bailarina, princesa e dançarina de frevo. Parado na porta, o cachorro lambe os beiços, de olho no panelão. “Xispa! Xispa!”
Ovos de capoeira, carne e feijão vêm da fazenda. O arroz, farinha e cominho foram comprados. A mais velha, de pé, se lambuza com um pé de galinha. “Esse pratão é para se amostrar. Nunca vi, essa menina só come tico”, a mãe comenta.


O mais novo quer sem gema. Comendo de colher, os sertanejos usam a mão livre para abanar a mesa. Zunindo, surgem uma, duas, três, quatro, há muitas delas atacando restos, esfregando patinha no suco de acerola. Não dão sossego. “Faz vergonha é as moscas”, reclama a maior.



Toca o celular de Branca. “Está tudo bem, mainha”, ela ri. “Queria saber se vocês já tinham ido embora. Tão dizendo de um golpe aí, o pessoal se passando por fotógrafo de fora para sequestrar criança. Tava era preocupada, os meus meninos são muito atirados.”
Na sala dos sertanejos, a televisão ligada para ninguém informa que o filho de uma ex-BBB acabava de ser preso, suspeito de matar um homem a facadas no Distrito Federal.


As histórias de Graciliano Ramos em Outras Mãos


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