VIDAS SECAS 80 ANOS - REPORTAGEM ESTADÃO - CAPÍTULO II

VIDAS SECAS 80 ANOS - CAPÍTULO II

As histórias da infância de Graciliano em outras mãos


Não há nada em referência ao escritor na casa onde ele nasceu, em Quebrangulo; na fazenda onde cresceu, em Buíque, hoje são produzidos ovos, leite e queijo


A artesã Adriana Nascimento, de 43 anos, abre a porta de madeira e já faz o pedido: “Não fotografa aqui dentro, por favor, que tá uma bagunça danada”.
No quarto defronte, há uma ou outra sobra de chita, as estampas floridas, caídas no chão. Adriana usa os retalhos para enfeitar potes, vasinhos, coisas do tipo — muito embora a alegada “bagunça danada” não seja constrangimento suficiente para fazê-la fechar o janelão da oficina, escancarado para rua.
Já na sala e nos outros quartos (ao todo, cinco), os móveis, bem alinhados, não faltam pedaço nem acumulam poeira. Também não se vê roupa jogada ou cacareco fora de lugar. Nada, nada. “Recebo todo mundo, sem problema nenhum. Só peço para não tirar foto. É minha intimidade, né?”




Pintado de branco e com telhado espichado para cima, o imóvel está na mesma calçada da prefeitura de Quebrangulo: cidade com cerca de 11,2 mil habitantes na boca do sertão alagoano, ora ameaçado pela seca ora por inundações do Rio Paraíba. “Terra de Graciliano Ramos, de todos nós!”, diz um cartaz colado na estação ferroviária.
 
 

O escritor nasceu em 27 de outubro de 1892 na casa onde Adriana mora hoje, apesar de já não existir por lá nada que seja de seu pertencimento.
Primeiro filho de Sebastião Ramos e Maria Amélia, Graciliano ficou pouco. Mudou-se com menos de 2 anos para a Fazenda Pintadinho, em Buíque, Pernambuco. A cidade fica a 175 quilômetros por rodovia esburacada, com trechos ladeados, de canto a outro, por palma, xiquexique, mandacaru, coroa de frade.
“Às vezes a gente está almoçando e, pronto, chega gente”, a artesã conta, sorrindo. “Eles vêm de caravana, estacionam ônibus cheio. É mais estudante das faculdades daqui da região, de Arcoverde (sertão pernambucano)...”, diz. “E uns estrangeiros também, um monte de branquelo falando estranho, querendo saber se é a casa dele.”

Então recolhida num cômodo, a mãe dela acorda do cochilo da tarde. Aos 78 anos, Gerusa Marcelo lembra uma índia com o cabelo curto, amarrado atrás. “Esse moço que morava aqui tinha um prestígio danado”, ela comenta. “O pessoal vem que nem enxame de abelha, entrando para dentro para olhar”, diz. Adriana guia pelo corredor que dá para a cozinha nos fundos: “Até antigamente as pessoas não valorizavam. Ninguém falava que era a casa de Graciliano”.
Chuviscando lá fora, as réstias iluminam pouco o interior da casa. “Não era assim”, Adriana aponta para o teto, com forro em vez de ripas. “Fecharam uma janela e a fachada também mudou: agora você vê que ela é toda lisinha”, descreve. “Antigamente ninguém tinha essa preocupação de preservar, né?”
Agora também não há cabras mansas no oitão (corredor lateral externo à casa). “Hahahaha”, ouve-se uma risada vinda do quintal. É um papagaio equilibrado no poleiro. Na verdade, papagaia: a Dalila. Com penas das asas cortadas, não corre risco de viagens nem de parar em nenhuma panela por aí. “Fala baixo, lôro, que se o Ibama descobre, eu tô lascada.”
Um dos cômodos foi feito de santuário. No altar, há duas imagens de Nossa Senhora de Aparecida, uma Nossa Senhora de Fátima e um anjo da guarda. Vê-se, ainda, São Sebastião, crivado de flechas. Por coincidência, o santo guarda o mesmo nome de dois ex-moradores da casa. Um, o pai de Graciliano. Outro, o último proprietário: Sebastião Silveira.

Gerusa foi trabalhar na fazenda dos Silveira, em Quebrangulo, ainda muito jovem. Cozinhava, cuidava da casa, até que os patrões decidiram sair da zona rural e vir “para a rua”, como os sertanejos chamam a área urbana. Gerusa veio junto.
Silveira nunca casou ou teve filhos. Sem herdeiro, deixou os papéis do imóvel para a família da criada. “Era um homem maravilhoso”, diz Adriana. “Bastião que adorava falar da casa, conhecia tudo. Antes dele, já tinham morado outras duas famílias aqui”, conta, apesar de não saber citar nenhum dos ex-proprietários. Por lá, o vínculo com Graciliano foi enterrado no mesmo caixão do fazendeiro.
Quando o patrão era vivo, havia falatório de que a prefeitura estava interessada em desapropriar o local, quem sabe fazer um museu. “Isso nunca foi para frente”, afirma. “Acho até que, historicamente, a casa é importante para a cidade, mas eu mesma não tenho essa paixão toda.”
“Me criei aqui, tô acostumada. Para mim, não tem nada de especial: é como se fosse uma casa igual às outras.”

 Chega-se à zona rural de Quebrangulo por estradas de barro. No caminho, várias casas estão desocupadas sob risco de desabar. Em março de 2010, o município, que periodicamente sofre com a seca gorando lavouras, decretou estado de calamidade pública pela enchente que inundou 80% da cidade e desalojou cerca de 4 mil pessoas.
 


Vidas Secas - Capítulo 2 - Galeria 2 - Foto 3



“A gente morava lá embaixo, a cheia levou foi tudo. Foi tanto sofrimento, tanta gritaria: sorte nossa que o pessoal ajudou com doação”, descreve a agricultora Ana Paula Costa Gomes da Silva, de 38 anos, apontando para uma casinha de pau a pique, entortada pelas águas do Rio Paraíba.
Quase uma década depois, vive a poucos metros de lá, junto com o marido, três filhas (20, 18 e 16 anos) e uma neta, de 2. “Por vida, sempre morei em casa de patrão.”
Os R$ 170 que o marido recebe por semana “dão para tapear”, diz Ana Paula, mas ela não sabe o que faria se não fossem os R$ 510 do Bolsa Família (que chama de Bolsa Escola). “Já passei fome, senti muita tontura. Às vezes não tinha feijão, a gente comia farinha”, diz. “Quando falta um bojão hoje, eu adianto com o patrão. Se é R$ 70, ele cobra R$ 75.”
A filha do meio, Tainá Costa Gomes, é mãe de Kethylly Thayara (a neta de 2 anos). Já Thaysa, a mais velha, está grávida, não se sabe ainda se de menina ou menino, e diz que agora vai tentar se cadastrar no programa.
“Tem que ir lá com chinela pocada e a perna toda suja, cheia de pereba. Se fizer chapinha no cabelo, pronto, já dizem que a gente é rico, fica sem benefício”, reclama, com barriga de poucos meses. “Aqui não tem trabalho : peço ao povo, ninguém dá.”
No ano passado, a estiagem secou torneiras, açudes e barragens. “Só tinha com caminhão-pipa: a água vinha barrenta, aquele fedor”, diz Ana Paula. À época, uma epidemia de disenteria abarrotou o hospital: faltou maca para quem chegava aos vômitos e diarreia, contam.
Na casa, a família inteira ficou doente. E ninguém tratava a água antes de beber? “A gente coava, claro.”
Separados por 60 quilômetros de asfalto, o produtor de leite Gleber Cardoso Ferro, de 37 anos, diz que também já foi vítima da seca em Minador do Negrão, outra cidade a decretar estado de emergência por estiagem em 2017. “A gente tinha cerca de 600 rês na fazend







A agricultora Ana Paula Costa Gomes da Silva em sua casa Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Vidas Secas - Capítulo 2 - Galeria 2 - Foto 5

Em Minador do Negrão, Maria das Graças Correia Ferro mora no imóvel usado no filme Vidas Secas: ‘Só quis conservar porque meus pais gostavam muito’ Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Para a mãe, a memória da seca na região é ainda mais antiga. “Em 1970, fazia fila para pegar água na cacimbinha”, diz
Na década de 1960, o imóvel da família foi usado nas gravações de Vidas Secas, filme de Nelson Pereira dos Santos. Por isso, não é raro Maria das Graças atender gente de fora querendo informações sobre a filmagem ou conversar do livro de Graciliano Ramos.
“Não sou muito de ler, não. Tenho curiosidade de assistir ao filme, mas nunca tive oportunidade”, responde a senhora que, simpática, oferece doce de mamão aos visitantes. “O pessoal daqui até comenta que minha irmã aparece num carro-de-boi.”
Maria das Graças desconhece quem era o proprietário da casa na época: só sabe que o pai a adquiriu de um tal Luís Custódio, já falecido, depois. Há um ano, a herdeira reformou a propriedade. Trocou telhas, revestiu de reboco e instalou cerâmica no banheiro de trás. “Por dentro ainda é taipa”, conta.
Na sala, pendurou uma tapeçaria, quase a parede inteira, com a imagem de um pavão. “Moro em uma casa comum, só quis conservar porque meus pais gostavam muito.”


Vidas Secas - Galeria 3 - Foto 01 
 Em Buíque, sertão de Pernambuco, os Ramos compraram a Fazenda Pintadinho em 1895 Foto: Daniel Teixeira/Estadão


Em 1895, Sebastião Ramos comprou a Fazenda Pintadinho, perto do vilarejo de São Domingos, em Buíque, onde carro-de-boi era sinal de progresso. Segundo biógrafos, Graciliano divertia-se com o pastoreio das cabras. Lá, ficou amigo dos criados e levou surras por reproduzir gírias de descendentes de escravos.
Os Ramos fugiam das cheias de Quebrangulo para cair na seca. Em Buíque, a criação não prosperou na seca e a família voltaria a migrar em 1899, desta vez para Viçosa. Pouco depois, Graciliano foi morar em Maceió, onde estudou.

 
Com o correr dos anos, a Pintadinho passou de mão em mão, até a última venda em 2005. Hoje, são criados lá cerca de 180 gados, além de galinhas, caprinos e suínos.
Parte do que é produzido é destinada ao varejo: ovo, leite, queijo de coalho. Os produtos são vendidos em uma instalação no pátio da fazenda. Em tinta branca e caligrafia pouco profissional, um aviso na parede, chapiscada de cimento, informa quem passa pela estrada de barro: “Padaria x Lanches”.


Vidas Secas - Galeria 3 - Foto 03 O gerente da Fazenda Pintadinho, Romero César Merêncio Foto: Daniel Teixeira/Estadão


O gerente é Romero César Merêncio, de 40 anos, de boné, calça jeans, camisa polo e sandália Havaianas. Na ausência do dono, ele quem dá as ordens. “Aqui é sossegado demais”, diz.
Frequentador da escola até a 3.ª série (atual 4.º ano do ensino fundamental), Merêncio é mais apegado a fazer conta: “Ler só sei um pouquinho”. Folhear Graciliano, não folheou, mas já ouviu falar bastante. “Todo final de ano, a escolinha de São Domingos dá uma festa e os meninos vêm aqui para fazer trabalho”, conta. “Outro dia, também chegaram umas 15 pessoas da faculdade, querendo visitar a fazenda.”
Aos domingos, a tradição é matar uma galinha de capoeira e preparar com xerém no almoço. Com grades no terraço e piso revestido com cerâmica que imita o calçadão de Copacabana, a sede já mudou bastante em mais de 120 anos. Pilares de madeira foram trocados por alvenaria. O teto, por PVC.



O vaqueiro da Fazenda Pintadinho


Não acha que a casa tem valor histórico? “O cara que é daqui não pensa muito nisso”, o gerente responde.
Em 2009, Merêncio decidiu largar Buíque e tentar a vida em São Paulo, para onde foi com a mulher e os quatro filhos (hoje, com 22, 21, 19 e 15 anos). “Consegui pouca coisa, mó de estudo mesmo: os empregos bons eu tinha de ter pelo menos a 8.ª série (atual 9.º ano do ensino fundamental)”, diz. “Trabalhei em madeireira, depois fui tomar de conta de uma chácara em Arujá.”
Voltou em 2013, o pai estava doente. Todos os filhos, os maiores de idade, preferiram continuar na Grande São Paulo – o último mudou-se agora em janeiro. “Não vejo a hora de fazer 18”, diz Thamires Merência, a de 15 anos, que tem preparado um seminário sobre Graciliano para a escola. “Aqui é bom às vezes, mas para mim já deu.”

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