GRACILIANO, ESCRITOR APAIXONADO
Graciliano Ramos, inseguro e apaixonado nas cartas que ele escreveu para Heloisa, sua segunda mulher, antes do casamento:
Heloísa,
[…]Não consigo dormir. O nordeste, lá fora, varre os telhados. Na escuridão vejo distintamente essa mancha que tens no olho direito e penso em certa conversa de cinco minutos, à janela do reverendo. Por que me falaste daquela forma? Desejei que o teto caísse e nos matasse a todos.
Andei criando fantasmas. Vi dentro de mim outra muito diferente da que encontrei naquele dia.
Por que me quisestes? Deram-te conselhos? Por que apareceste mudada em vinte e quatro horas? Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez.
É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor.
Fui visitar o Padre Macedo.
Falou-me de ti, mas o que me disse foi vago, confuso, diante de dez pessoas. É triste que, para ter notícias tuas, minha filha, eu as ouça em público. Foram minhas irmãs que me disseram o dia do teu aniversário e me deram teu endereço.
Tinha razão quando afirmaste que entre nós não havia nada. Muito me fazes sofrer.
É preciso que tenhas confiança em mim, que me escrevas cartas extensas, que me abras largamente as portas de tua alma.
Beijo-te as mãos, meu amor.
Recomendo-me aos teus, com especialidade a dona Lili, que vai ser minha sogra, diz ela. Acho-a boa demais para sogra.
Amo-te muito. Espero que ainda venhas a gostar de mim um pouco.
Teu Graciliano.
Palmeira, 16 de janeiro de 1928.
Heloisa,
[…]Quando recebi tua carta, tremi de susto, pois a angústia em que vivi uma semana por não me chegarem notícias tuas era horrível e me trazia toda a sorte de pressentimentos dolorosos. Ao ler o que me disseste, porém, apareceu-me uma alegria imensa. Não calculas o bem que me fizeste. Vejo perfeitamente que não tenho razão para ser hoje mais feliz do que era ontem, sei que escreveste aquilo forçada pela insistência quase impertinente que tenho adotado para contigo. Mas como és boa! Procuras dar-me a ilusão de que me amas, e isto me enche de gratidão infinita. Não tenho agradecimentos que bastem. Evitas a palavra precisa, fazes apenas um a e uma série de pontos, mas confessas que acreditas em mim, parece que ficaste contente com a minha pobreza, explicas como podes a indecisão e a reserva que tanto me fizeram sofrer.
A prefeitura? Sim, foi ela que interrompeu a viagem que eu tinha certa para amanhã. A propósito: que história é essa de posição elevada? Enganaram-te, minha filha. Para os cargos de administração municipal escolheram a preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça alguns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio. Por tua culpa, meu amor, toco num assunto desagradável e idiota. Isto não vale nada.
[…]Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a alma inteira, deixa-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te.
Amo-te com ternura e com saudade: a indignação e o ódio desapareceram. E como poderiam existir depois da carta que me escreveu a melhor de todas as criaturas, santa bendita exilada entre as mulheres, cheia de graça, que em breve dará calor e luz à vida escura e fria que levo? Romantismo, minha querida Heloísa, romantismo, e ruim.
Perguntas-me quando vou. Oh! meu Deus! Eu queria ir amanhã, desfiz a viagem a pouco. E estou aflito. O que eu devia fazer era deixar que o diabo levasse tudo e fugir para junto de ti. E é o que farei.
Acreditar na grande sinceridade de Heloísa? Decerto. Acredito em tudo quanto quiseres.
Teu Graciliano.

