GRACILIANO RAMOS E O CAPITALISMO SELVAGEM




GRACILIANO RAMOS, O CAPITALISMO SELVAGEM E A REIFICAÇÃO DO INDIVÍDUO NO ROMANCE SÃO BERNARDO
(Notas e Avaliação da Quarta Aula da disciplina Literatura Brasileira do Profº Godofredo de Oliveira Neto feitas por sua aluna Profª Vera Dias)

Na aula de hoje, 28/08/2018 na UFRJ, nós alunos da disciplina, continuamos discutindo o Livro S. Bernardo.

Sem dúvida, uma das coisas que ficaram consolidadas nessa aula, levantadas através das discussões entre meus colegas da disciplina de doutorado
Marcelo Maldonado e Débora Silvestres,  do Profº Godofredo e também com a participação brilhante do Profº César Garcia Lima foi o fato de que falar de Graciliano Ramos é falar da situação política brasileira. Ficou claro para todos nós, participantes dessa aula, que falar de um autor neorrealista como Graciliano é sobretudo falar do Brasil. O que vem demonstrar mais uma vez que para mim como também para meus colegas de turma, que os livros de Graciliano nos permitem um reflexão que não fica só no nível do enredo, mas eleva-se em outros campos graças ao modo como ele articula as coisas. 

O  Profº Godofredo demonstrou que Graciliano apresenta nesse livro uma reflexão aguda sobre as questões sociais brasileiras aquilo que me recordo de ter lido numa declaração em um artigo de um um dos maiores pensadores brasileiros e sociólogo da USP, que foi Florestan Fernandes, chamou de "CAPITALISMO SELVAGEM".

Godofredo  citou o exemplo de Paulo Honório, demonstrando que o personagem não era apenas simplesmente um homem situado numa propriedade rutal nordestina. É o modo como se articula o capitalismo brasileiro - no campo e na cidade. Ainda que os objetos articulados na cidade sejam outros , a exploração permanece.  

Fui averiguar a origem desse termo citado por Godofredo. E verifiquei que a expressão capitalismo selvagem é um termo criado originalmente para se referir à fase do capitalismo na época da Primeira Revolução Industrial (cerca de fins do século XVIII). Naquela época, especialmente na Grã-Bretanha, camponeses empobrecidos vindo de um meio rural superpovoado e estagnado, não tinham outra alternativa senão trabalhar nas nascentes indústrias da época, criadas a partir das inovações tecnológicas que pipocavam a todo momento, em especial o tear mecânico ou ainda o motor a vapor.

Obviamente, neste cenário cheio de inovações, não havia nenhum regulamento ou disposição prevendo como se dariam as relações entre os donos de fábricas e seus empregados. Assim, as condições de trabalho desses primeiros empregados eram as mais desumanas possíveis, com um dia de trabalho de dezesseis horas ou mais, emprego de menores de idade, até mesmo crianças em ambientes insalubres, fechados e de risco de mutilações e doenças. Isto se dava não por falta ou pelo excesso de humanidade de qualquer um dos patrões, o que acontecia é que esta realidade de trabalho dava o máximo de retorno financeiro ao dono do empreendimento. Muitas vezes, os trabalhos nas fábricas não paravam, havendo turnos diurnos e noturnos, numa rotina de trabalho de 24 horas, que supria não só a Europa como boa parte do mundo com os novos produtos industrializados. Claro, este sistema não trazia vantagem nenhuma ao trabalhador, mesmo que fosse mais vantajoso de que aguardar por trabalho no campo. Esse sistema todo descrito deu origem ao termo capitalismo selvagem, onde a exploração ferrenha do rico empresário oprimia os pequenos trabalhadores, assim como na selva, os animais grandes impõem sua vontade aos pequenos.

Hoje, a locução "capitalismo selvagem" é utilizada para indicar um sistema capitalista de dimensões globais, onde ocorre concorrência ferrenha entre as multinacionais dominadoras de vários mercados ou até mesmo países, com o apoio de seus governos lenientes e corruptos, fruto da ausência de sustentabilidade do modelo capitalista dos dias de hoje. Exemplo perfeito deste conceito é o domínio que a Firestone, empresa do ramo da borracha industrial exerceu desde 1926 até bem recentemente dentro do território da Libéria, país africano, onde a mesma praticamente controlava o país.

Este segundo significado também é ligado a vários outros conceitos onde o ganho financeiro suplanta o desenvolvimento humano e do planeta como um todo. Assim, o conceito de capitalismo selvagem estará ligado a vários outros temas, como por exemplo a política dos países ricos, que exploram as riquezas da terra sem consideração a qualquer noção preservacionista ou auto-sustentável, ou a banalização da morte a favor do capital, ou da guerra pelo petróleo, pela venda de armas, pela manutenção de um estilo de vida luxuriante nos países desenvolvidos, a venda de alimentos industrializados com produtos cancerígenos, a utilização dos pesticidas, o superaquecimento do planeta, desmatamento, a morte pela fome e AIDS, a impunidade dos criminosos detentores de poder econômico ou político, e até mesmo a infância desvalida que acaba atraída para o tráfico de drogas e a criminalidade.

Godofredo também fez referência a um termo que aprecio muito, chamado REIFICAÇÃO. No dicionário, Reificação é uma operação mental que consiste em transformar conceitos abstratos em realidades concretas ou objetos. No marxismo, o conceito designa uma forma particular de alienação, característica do modo de produção capitalista. De acordo com o filósofo Karl Marx Marx, criador da teoria,  considerar o trabalho como uma mercadoria (commodity) exemplifica a reificação do indivíduo., ou seja, transforma  o homem ou algo em coisa - objeto de consumo.

Assim sendo, a reificação configura-se como o processo pela qual, nas sociedades industriais, o valor (do que quer que seja: pessoas, relações inter-humanas, objetos, instituições) vem apresentar-se à consciência dos homens como valor sobretudo econômico, valor de troca: tudo passa a contar, primariamente, como mercadoria.O trabalho reificado não aparece por suas qualidades, trabalho concreto, mas como trabalho abstrato, trabalho para ser vendido. A sociedade que vive à custa desse mecanismo produz e reproduz, perpetua e apresenta relações sociais como relações entre coisas. O homem fica apagado, é mantido à sombra. Todo o tempo, fica prejudicada a consciência de que a relação entre mercadorias (e a relação entre cargos) é, antes de tudo, uma relação que prevalece sobre a relação entre pessoas.
Gracilianao Ramos, como sabemos, lança no livro S. Bernardo um  discurso austero que nega as utopias,  trazendo como bem demonstrou o Profº Godofredo, à tona relações interpessoais norteadas pela lógica do lucro acima de deveres, valores e pessoas, denunciando condições degradantes da evolução humana e contextos inumanos que assinalam a reificação dos indivíduos.

Lançando mão de um discurso austero que nega as utopias, Graciliano Ramos traz à tona relações interpessoais norteadas pela lógica do lucro acima de deveres, valores e pessoas, denunciando condições degradantes da evolução humana e contextos inumanos que assinalam a reificação dos indivíduos.

Godofredo deixou claro que a a situação existencial em São Bernardo é definida justamente pelo embate entre a reificação e a humanização de seus personagens.
Minha colega de turma, Débora Silvestres, citou um outro aspecto importante, lembrando que as personagens Madalena (e eu acrescentaria também aqui a Margarida), por exemplo, são mencionadas como aquisições por Paulo Honório a julgar pelo tratamento que dá ao casamento com a primeira, tido como um negócio, e ao resgate da segunda, citado como parte de um plano ou como mais um de seus empreendimentos. Ela lembrou  que em certo momento da história, Paulo Honório, após pedir a mão de Madalena em casamento e ouvir dela que deveria haver reciprocidade de sentimentos, argumenta: “Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia” (RAMOS, 1984, p.87). Fica explícito que para ele a questão “casamento” tinha como indicativo único a ideia de procriação. Mas por que, então, escolher Madalena e não um ‘mulherão’ como Marcela? Possivelmente a escolha de Madalena tenha se dado exatamente por aquilo que mais a afastava de seu mundo: a cultura letrada.
Paulo Honório tinha um tino natural para negócios, para a acumulação de bens, mas não possuía o tipo de cultura que Madalena havia conquistado na Escola Normal. Sendo assim, a escolha pela professora pode ser vista como uma tentativa de unir o instinto comercial que ele dominava com a formação acadêmica da escolhida; elementos que propiciariam uma prole perfeita. A lógica exposta acima do pais bons equivalem a filhos bons, uma lógica de caráter naturalista, é colocada em prática pelo personagem na busca daquilo que mais valia para seu ser: um herdeiro. Logo, valeria o risco de se envolver com uma mulher que pertencia a uma esfera intelectual diferente. Ou melhor, superior. Paulo Honório expõe suas esperanças, não se mostrando preocupado com suas diferenças: 

“A senhora, pelo que mostra e pelas informações que peguei, é sisuda, econômica, sabe onde tem as ventas e pode dar uma boa mãe de família” (RAMOS, 1984 p.89) e isso já seria o suficiente para estabelecer e/ou justificar a união dos dois. 

Apesar de a união se sacramentar, Paulo Honório tem claro na sua cabeça a sua escala de valores: “Professorinhas de primeiras letras a escola normal fabricava às dúzias. Uma propriedade como S. Bernardo era diferente” (RAMOS, p.115). 

O papel principal de Madalena seria procriar, contribuindo com seu gene culto na geração do rebento. Sendo assim, seria impossível uma comparação entre ela e a fazenda.

Entretanto, destacaria ainda, uma frase da obra que comprova o objetivo inicial de Paulo Honório em sua relação com Madalena dá seu fruto:


“Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradáveis, que eu fingia não compreender. Via a barriga crescer-lhe. Uma compensação” (RAMOS, 1984, p.113).

Paulo Honório tenta suportar suas desavenças com ela com a possibilidade da vinda do tão sonhado herdeiro e imagina o quão mais fácil seria a ‘vida reprodutiva’ e/ou ‘amorosa’ dos animais:

“Demorei-me um instante vendo um casal de papa-capins namorando escandalosamente. Uma galinhagem desgraçada. Dentro de alguns dias aquilo se descasava, cada qual tomava seu rumo, sem dar explicações a ninguém. Que sorte!” (RAMOS, 1984, p.120)

A mesma animalização que justifica para o personagem a hereditariedade seduz Paulo Honório, que vislumbra no exemplo das aves o ideal de relação. A procriação teria espaço, sem a necessidade de dar explicações ao cônjuge. Exatamente um dos pontos-fracos do personagem na relação com sua esposa.

À guisa de conclusão, vale citar aqui a menção que Godofredo fez sobre uma frase de Graciliano Ramos, proferiu em sua última entrevista ao escritor e jornalista Homero Senna, quando indagado por ele sobre se ele se considerava um modernista. De uma maneira ácida ele declarou assim :

"Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão."

No meu ponto de vista, creio que Graciliano foi um escritor que continuou sempre emocionalmente vinculado à sua origem. Preferia o interior à cidade grande, e o contato íntimo com sua terra e o seu povo. Reconhecia vir daí a força de escritores como Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado. Sendo um dos escritores modernos que melhor manejaram o nosso idioma, convencido de que não há talento que resista à ignorância da língua, deixou o exemplo de luta e querência pela palavra, a escrita como um difícil exercício de construção em meio ao silêncio. Preocupou-se com o estilo, mas não inventou um idioma, como Guimarães Rosa.

No entanto, apesar de Graciliano não se considerar um modernista, não há como fugir do fato de que tomando por base outro de seus famosos romances, "Vidas Secas", onde se falou sobre a vida difícil do nordeste durante a década de 1930, quando a economia do país não ia muito bem das pernas e as secas prejudicaram a população local, a linguagem que ele utilizou nessa romance é super inovadora, ninguém tinha visto nada parecido até aquele momento. Isso foi assim, sem dúvida, uma marca da segunda fase do Modernismo , o Regionalismo, em que alguns autores escrevem sobre os lugares onde nasceram. Graciliano Ramos, alagoano, entrou nesse movimento junto com outros autores, como o gaúcho Érico Veríssimo e o paraibano José Lins do Rego.

Dessa forma, qual o legado de Vidas Secas para a literatura brasileira, nesses 80 anos desde o seu lançamento ? São muitas as respostas. Tornou-se quase estereótipo referir a exatidão, as frases curtas e limpas de excessos humanos, o ritmo dado às frases, a escolha certa das palavras, a eliminação de tudo o que não é essencial. Finalizando, por tudo que foi dito, creio que o maior legado de Vidas Secas é o de uma escrita em que é possível reconhecer a linguagem no processo de tornar-se literatura.



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