O PAPEL DA LITERATURA NA VISÃO DE GRACILIANO RAMOS COM BASE NA OBRA MEMÓRIAS DO CÁRCERE



O PAPEL DA LITERATURA NA VISÃO DE GRACILIANO
Profª Vera Dias
Discutindo o papel e o alcance da Literatura com base
 na obra Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos
Xilogravura de Percy Deane que ilustra edição de Memórias do cárcere


Queridas alunas. Ontem antes de dormir estive relendo o romance Memórias do Cárcere de Gracilianao Ramos procurando encontrar nessa obra embasamento teórico da visão do escritor sobre o papel da literatura. E descobri coisas bem interessantes. 
Para mim, o que aconteceu com Graciliano quando ele foi preso diz muito sobre isso. Penso que para ele, o papel da literatura coube sempre com o objetivo de sempre, resistir, denunciar. Resistir à barbárie da exploração do homem pelo homem, denunciar as injustiças e as desigualdades de quaisquer naturezas. Escrever para ele foi sempre um compromisso não só com a palavra, mas também com a sociedade. O escritor pode não pegar em armas, porque sua luta é outra, sua arma são (com) as palavras. É preciso escrever para resistir à barbárie da exploração do homem pelo homem.
O escritor, ao transmitir o “incomum, ao transmitir o “incomunicável”, por meio do ato de escrever, faz emergir o caráter essencial da escrita para a figura do intelectual. Apesar de a literatura ser, aparentemente, uma “arma frágil” nessa luta, diante de um sistema opressor, ela pode estremecer as estruturas do poder que se encontram não só no seio da sociedade, mas também no interior de cada indivíduo.
No livro reparei que quando Graciliano deixou a Colônia Correcional, foi acompanhado pelo diretor suplente do presídio, um médico com quem travou um breve e significativo diálogo:

– Que beleza, doutor! Que maravilha! [...] [Referindo-se à paisagem] .

E experimentei a necessidade imperiosa de expandir-me numa clara ameaça. 

[...]
– Levo recordações excelentes, doutor. E hei de pagar a hospitalidade que os senhores me deram.
– Pagar como?
[...]
– Contando lá fora o que existe na ilha Grande. 
[...]
Sim, doutor, escrevendo. Ponho tudo isso no papel.
O diretor suplente recuou, esbugalhou os olhos e inquiriu carrancudo:
– O senhor é jornalista?
– Não, senhor. Faço livros. Vou fazer um sobre a Colônia Correcional.
Duzentas páginas ou mais. Os senhores me deram assunto magnífico.
Uma história curiosa, sem dúvida.
O médico enterrou-me os olhos duros, o rosto cortante cheio de sombras.
Deu-me as costas e saiu resmungando:
– A culpa é desses cavalos que mandam para aqui gente que sabe
escrever. (Ramos 2001a: 158).

O narrador necessita da rememoração para resgatar o passado através da escrita. Graciliano Ramos necessita dizer ao diretor do presídio que vai escrever o registro de sua experiência como prisioneiro. Ironicamente, revela que vai “pagar” a “hospedagem” que lhe deram. As anotações que Graciliano fez no período em que esteve preso foram perdidas. Num momento em que esteve numa situação embaraçosa, temendo ser apanhado, desfez-se de seus escritos. Entretanto, mesmo após dez anos e já na iminência da morte, sentiu que era imperioso escrever.
E diria mais :uma das principais características da literatura é a de não possuir limites: é a de existir constantemente negando o seu limite. E que limite é esse? É aquele que a “separa” do “real”. A literatura, portanto, encerra a criação do “real”. Está na vanguarda da linguagem: nos fala da vida e da morte E assim,diante do pavor do contato das catástrofes externas e internas ela sempre estará presente.


E vale a pena recordar a importância dessa obra.
Graciliano Ramos foi preso em março de 1936, acusado de ligação com o Partido Comunista. Prisão sem processo, mas que não evitou a deportação do acusado, num porão de navio, para o Rio, onde permaneceu encarcerado. Foi demitido do cargo de Diretor da Instrução Pública e levado a diversos presídios, até Janeiro de 1937, quando foi libertado. Dessa experiência resultou a obra Memórias do Cárcere, publicada postumamente em 1953. A obra não é o relato puro e simples do sofrimento e humilhações do homem Graciliano Ramos; é a análise da prepotência que marcou a ditadura Vargas e que, em última análise, marca qualquer ditadura. É um dos depoimentos mais tensos da literatura brasileira.
Escrito em quatro volumes (sem o capítulo final, pois Graciliano faleceu antes de concluí-lo), Memórias do Cárcere narra acontecimentos da vida de Graciliano Ramos e de outras pessoas que estiveram presas durante o Estado Novo. A narrativa é amarga, mas sem exageros ou invenções, nessa obra Graciliano Ramos é fiel aos acontecimentos. Se há amarguras e sordidez, é porque as situações vividas foram sórdidas e amarguradas.
A narrativa de Graciliano Ramos, pela exposição de motivos contida no capítulo de abertura da obra, dá ao texto uma autenticidade autobiográfica, sobretudo se a ela somarmos a “explicação final” de Ricardo Ramos,  seu filho no livro que escreveu, Retrato Fragmentado, na qual ficam esclarecidas as dificuldades que impediram o autor de dar definitivamente o texto por concluído. Essa narrativa, característica do relato autobiográfico, oferece a típica junção autor-narrador-personagem, sendo possível percebê-la como resultado da experiência vivida, o que aproxima Graciliano Ramos da noção de narrador clássico. A autoridade do narrador clássico é referendada pela perspectiva da morte, conforme se percebe já no início do texto: “... estou a descer para a cova...”. A morte, para o filósofo alemão, confere autoridade, pois é nesse momento que o saber humano assume uma força maior, tornando imperativa a sua transmissão. O narrador clássico sabe dar conselhos. Narra porque tem experiência de vida, e é essa experiência que lhe dá sabedoria. A obra do escritor alagoano, ao fazer uso da forma autobiográfica, ao falar de si mesmo, intencionalmente mistura a sua voz a outras, até então silenciadas, contrariando assim a perspectiva natural desse tipo de relato.
Memórias do Cárcere é o testemunho da realidade nua e crua de quem, sem saber por quê, viveu em porões imundos, sofreu com torturas e privações provocadas por um regime ditatorial chamado de Estado Novo.
Na obra Graciliano Ramos não diz diretamente que se sente injustiçado, embora o tenha sido e isso se explicita no próprio texto. Não fica insistindo que não deveria estar naquelas situações, isso faz com que a indignação do leitor não fique restrita às suas histórias particulares, mas se direcione a situações vivenciadas por muitas pessoas. O que o autor retrata, e é o que mais interessa em Memórias do Cárcere, é um olhar de quem foi preso, algo que é muito mais abrangente do que se fixar no olhar do narrador.
O discurso, regido pela égide da opressão, é caracterizado pelo desdobramento: pois é psicológico, e, ao mesmo tempo, um documentário; é particular, mas universaliza-se.
Trecho da obra

“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido.”


Filme Memórias do Cárcere com Carlos Vereza no papel de Graciliano Ramos



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