Posfácio do livro São Bernardo de GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO




Depois de ler ao longo dos tantas leituras de obras clássicas escritas por nordestinos como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa por força de minha profissão como professora de Literatura Brasileira que fui e hoje aposentada,   posso ver claramente que não existe povo tão sábio quanto o sertanejo, e tudo conseguido às duras penas, sem os recursos do povo do Sul... Hoje é sabido que há na língua portuguesa uma riqueza enorme, e que nenhuma palavra é criada ao acaso, sendo que algumas são atemporais, outras caem de moda, deste modo, aprendi e tenho a convicção de que não cabe mais nos nossos dias o preconceito linguístico. Achar que uma palavra é certa ou errada é ignorância. O que temos é uma riqueza de linguagem extensa, que devido ao regionalismo, a cultura, e ao meio social, são mais usadas ou não. 

A secura daquelas terras invadiu a alma de muitos homens. A fome matada à custa de palmas e lagarto conhecido calango, a sede à água de cacimba e tendo um olhar perdido no horizonte a espera de milagres. E sabemos ainda, de tantos filmes famosos que assistimos, que não há povo que tenha mais fé que o povo nordestino . Só lhes resta mesmo nesse estado de extrema carência a reza, e tudo resume-se a isso, festas religiosas e novenas. Olhar para o horizonte e pedir a Deus que mande água, comida ou a morte como salvação, essa é a reza principal do sertanejo. Como o pensamento é o que de mais oculto temos, então pedem perdão dos pecados a todo instante... No fundo devem maldizer a Deus e a todos os Santos por tamanha miséria, por terra tão desgraçada. 

Vamos agora falar desse romance único e incomparável com o qual vou tecer aqui minha análise crítica. Mas antes faz-se necessário um breve preâmbulo. Que meus leitores leiam na íntegra o pósfácio desenvolvido pelo escritor Godofredo de Oliveira Neto clicando aqui. Tudo o mais que eu possa dizer ele o condensou muito bem nesse texto.

E agora prossigamos na minha análise crítica :

É de uma narrativa tão rica, que em alguns momentos, para mim,Paulo Honório e Graciliano são a mesma pessoa, (criador e criatura). O que é descrito no texto é uma grande solidão e uma vida inteira de erros. Erros estes que não podem mais ser corrigidos, mas bem que poderiam render um outro romance se ele enxergasse em si próprio a mudança.

Paulo Honório me lembra a admoestação de Cristo na Bíblia : "De que vale um homem conquistar o mundo todo e perder a sua alma ?" (Evangelho de Lucas 9:25).

 Corrigir seus erros o personagem já não era capaz e possível, pois a expectativa de vida no nordeste naquela época não chegava aos 40 anos, e por este motivo, Paulo Honório considerava-se um velho aos 50 anos de idade, nisso não via a possibilidade de ser amado por sua esposa, por achar-se velho e inferior. Também devido a instrução de Madalena, mulher das letras e participativa da vida social, política e econômica, pelo menos em informação, cuja literatura fazia com que ele pensasse, que ela seria comunista.

Ainda que houvesse o desprezo por todos que o cercavam, era neles que o seu ciúme via qualidades. Seu orgulho doentio não poderia admitir isso,daí passa a torturar os empregados, "amigos" e a esposa até levá-la ao suicídio... E para espantar a solidão, nada mais restava a ele,a não ser, escrever seus mandos e desmandos: suas memórias. Sem conhecer os pais, Paulo Honório fora criado pela negra doceira Margarida, e com a venda de suas cocadas ganhavam o sustento. Também foi guia de cegos e como todo sertanejo finca pé na roça. Ao passar para a maior idade, cometeu um crime, (de peixeira), é claro que, e em "nome da honra", por um rabo de saia que fora sua primeira mulher. 

Na cadeia aprendeu a ler, e ao sair arranja dinheiro emprestado e passa a ser mascate, até chegar ao negócio de bois, onde sua cabeça ao lidar com valor maior volta-se somente a amealhar dinheiro. Que com rara "esperteza" passa a perna em quem estiver por perto. Finge-se de amigo, e consegue as terras de São Bernardo por uma quinquilharia, aproveitando-se da fraqueza e ingenuidade de Luis Padilha. Se teve um dia alguma noção de certo ou errado, perdeu-a completamente com a ganância. Engana, invade terras, avança cercas, manda matar de tocalha, um homem sem escrúpulos, não poupa esforços para realizar seus propósitos. 

Essa história é comum e faz parte da vida de muitos fazendeiros dos sertões do nordeste. Entretanto, em dado momento desperta um certo heroísmo aos meus olhos de leitora, e chego a torcer por ele. Sem muita instrução e cultura, mas dono de uma inteligência e esperteza fenomenal, diferente de sua esposa, infiltra-se na política, chegando a receber até o governador em sua fazenda. Por aquelas bandas a maior riqueza eram terras, e quem as possuía era doutor ou coronel...(como nos dias de hoje). Ser amigo do juiz, do padre e do delegado outorgava direito a "carta branca" ,e diante isso, acima da lei, que dirá ser amigo do governador?... Como podem ver, nada mudou por aqui nesse país. Já assistimos esse filme e continuamos a assistir.

Paulo Honório lutou tanto por riqueza que matou seu lado sentimental, o desejo sexual inerente ao ser humano saciava com a mulher de seu empregado, mandando-o para afazeres longe da fazenda, enquanto deleitava-se com Rosa. Seu tempo era dedicado somente ao trabalho, esquecera-se do amor. Apenas pensou em casar-se para ter um herdeiro, o qual nunca lhe despertou , sequer, um tiquinho de amor. Nos capítulos que segue-se ao casamento esperei um pouco de romance, mas qual?... Logo estava ela parindo e ao invés de despertar o amor e o desejo daquele homem, despertou aos seus olhos a displicência que teve consigo mesmo, de envelhecimento e de sua inferioridade, por conseguinte, seu ciúme doentio. 

Paulo Honório não via igualdade entre os seus semelhantes, ainda que vindo da mesma origem que a sua. Para ele quem não alcançava riqueza não tinha inteligência suficiente, e logo, não era merecedor de seu respeito, tampouco sua compaixão. As pessoas não eram seres humanos, eram coisas. A escravidão já havia acabado, todavia, por aqueles lados parecia que não, pois se seus empregados não andassem na linha, chegavam a ser esbofeteados, humilhados e espancados sem defesa, na frente de qualquer um... Sem contar que, a miséria não o comovia de modo algum, tanto que , sua esposa ao tentar aliviar um pouco da fome, da desigualdade e injustiça pelos baixos salários pagos por ele, amealhou foi ainda mais a sua raiva, que para ele, ela não sabia o sacrifício que  havia feito para ganhar a sua fortuna...o que ela sabia é que ele foi capaz de matar, e isso incomodou-o de sobremaneira.

Causando-lhe ainda mais sanha, junto ao ciúme que por ela alimentou, até levá-la à morte e a sua completa solidão.

Portanto, caros leitores dessa postagem, não há como negar depois de tudo que relatei aqui da personalidade de Paulo Honório que Graciliano Ramos foi um gênio pois a leitura desse livro mostra nos mínimos detalhes a que ponto pode chegar a ambição de um ser humano a ponto de embrutecê-lo  e retirar dele a humanidade. Sem dúvida, há muitas lições de vida a serem retiradas através da leitura desse livro. Uma obra que será perene e citada por muitas gerações.



NOTAS IMPORTANTES PARA A COMPREENSÃO DA OBRA

A construção da narrativa

O romance é narrado na primeira pessoa, como já mencionei na introdução, pelo proprietário Paulo Honório, e é divido em XXVI capítulos. A narrativa compõe-se em dois níveis temporais:
o passado, ou seja eventos que ocorreram na vida de Honório, e o presente, isto é, o movimento em que se escreve o livro.
Os capítulos I, II, XIX e XXVI pertencem ao nível presente, como se pode ver no segundo capítulo, quando Paulo Honório escreve:
“Tenciono contar a minha história …Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café…" (G. Ramos: p.12), o no capítulo XIX: “Quando os grilos cantam, sento-me aqui á mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo... Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta." (G. Ramos: p.89/90).
Nestes capítulos, e também no capítulo XXXI, no qual Madalena se suicida ( “Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca. Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado." G. Ramos: p.146), surge com certa frequência a menção de um pio de coruja , cujo significado analisarei no terceiro capítulo.

O pio da coruja

Em “ São Bernardo " surge repetidamente a referência ao pio da coruja, que quase sempre se faz ouvir quando Paulo Honório recorda a sua esposa: Madalena suicidara-se há dois anos por causa do ciúme agressivo do seu marido.
O dito pio aparece no capítulo I: “Na torre da igreja uma coruja piou, Estremecei, pensei em Madalena." (G. Ramos: p.11), e dois: “ Abandonei a empresa, mas um dias destes ouvi novo pio de coruja - e iniciei a composição de repente…" (G. Ramos: p.12). Depois destes dois exemplos não aparece outro pio de coruja até o capítulo XIX, o qual, como os dois primeiros, representa o tempo enquanto Paulo Honório escreve o livro. “Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo…Quanto ás corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau." (G. Ramos: p.90-91)
Ainda não sabe o leitor porque Paulo Honório reflecte tanto sobre o pio da coruja ou porque este o faz iniciar a composição do livro. Honório segue a sua narrativa e descreve nos capítulos XX até XXXVI a vida na fazenda São Bernardo que esclarecem ao leitor a relação entre a Madalena e o proprietário. Paulo Honório trata mal aos seus empregados e começa, guiado pelo ciúme, a desconfiar de Madalena:
“Qual seria a religião de Madalena? Talvez nenhuma…Mulher sem religião é capaz de tudo…Procurei Madalena e avistei-a derretendo-se sorrindo para o Nogueira…comecei a sentir ciúmes." (G. Ramos: p.116-117)
O ciúme de Paulo Honório aumenta e ao mesmo tempo cresce a sua raiva (“ O meu desejo era pegar Madalena e dar-lhe pancada até no céu da boca…Atormentava-me a ideia de surpreendê-la. Comecei a mexer-lhe nas malas, nos livros, e abrir-lhe a correspondência. Madalena chorou, gritou, teve um ataque de nervos. " G. Ramos: p.122) por Madalena. Ele está alucinado pela ideia de encontrar uma prova que justifique as suas suspeitas e o seu ciúme.
A obsessão culmina no capítulo XXXI, no qual há novamente uma menção de um pio de coruja. Este capítulo é a chave para o leitor perceber o sentido do pio:
Paulo Honório sobe à torre da igreja para procurar e matar corujas, porque “ algumas se haviam alojado no forro, e à noite era cada pio de rebentar os ouvidos da gente." (G. Ramos: p.138)
Lá de cima da torre contempla a paisagem e consegue ver à Madalena escrevendo no escritório. Enquanto “ uma coruja grita" , a curiosidade pelo escrito da sua mulher aumenta o ciúme:
“Em que estará pensando aquela burra? Escrevendo."
(G. Ramos: p.138)
Honório descobre no chão uma folha de prosa, com a letra de Madalena, e pensa ter encontrado a prova da infidelidade da mulher.
Cheio de fúria não consegue perceber que a carta encontrada fora dirigida a ele próprio e que não havia outro homem na vida da sua esposa.
[...]
RESUMO DE SÃO BERNARDO


Paulo Honório, fazendeiro embrutecido, viúvo e solitário, aos cinqüenta anos decide escrever um livro para rever e entender sua vida. Inicialmente, imagina elaborar o livro com a colaboração de padre Silvestre, do advogado João Nogueira e de Azevedo Gondim, um jornalista, que seria responsável por reescrever em linguagem literária o relato. A escritura a tantas mãos é frustrada. Paulo Honório, então, desfaz o compromisso. Passa a construir a narrativa, solitariamente, e, durante quatro meses, sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, recupera lembranças, como se sentisse obrigado a escrever e, emocionadamente, expõe e analisa a própria vida.

A narrativa de Paulo Honório


Paulo Honório foi um menino órfão, criado por uma negra doceira _ . Na infância, para sobreviver, guiava um cego e vendia cocadas. Mais tarde, passou a trabalhar na roça. Até dezoito anos trabalhou duro no sertão. Nessa época, já se mostrava um homem rude, hostil, quando, por desejo de lavar a honra, esfaqueia João Fagundes, matuto que se envolve com Germana, uma mulher que o iniciara sexualmente _ . É preso por três anos, nove meses e quinze dias. Durante a prisão, aprende a ler com o sapateiro Joaquim, esquece Germana e pensa apenas em juntar dinheiro, assim que ganhasse liberdade.

Sai da cadeia, empresta a juro, do agiota Pereira, cem mil-réis e passa a negociar redes, gado, e todo o tipo de miudeza pelo sertão. Enfrenta hostilidades, injustiças, sede, fome. Resolve impasses comerciais com ameaças e armas na mão, até que, com certas economias, retorna, em companhia de Casimiro Lopes, para sua terra, Viçosa, com o desejo inabalável de adquirir São Bernardo, a fazenda onde fora trabalhador alugado.

Para realizar seu intento, Paulo Honório inicia um jogo de intenções veladas e uma amizade falsa com Luís Padilha, herdeiro de São Bernardo, moço apaixonado por jogo, mulheres e bebida. Aos poucos, Paulo Honório ganha a confiança de Luís Padilha, filho de seu antigo patrão. Passa a incentivar e financiar projetos errados e ingênuos do inexperiente Padilha, com a intenção calculada de promover a ruína econômica e financeira do dono de São Bernardo _ . Com promissórias vencidas e pressionado violentamente por Paulo Honório, Luís Padilha se vê forçado a entregar a fazenda por um valor insignificante _ .

Proprietário da fazenda, Paulo Honório canaliza todo o seu espírito empreendedor e transforma as terras abandonadas de São Bernardo. Com a ajuda de Casimiro Lopes, manda matar Mendonça, fazendeiro vizinho, estendendo, assim, os limites das próprias terras. Consegue empréstimos em bancos, investe em máquinas, na plantação de algodão e mamona e desenvolve a fruticultura. Constrói estradas para escoar os produtos, impõe-se um ritmo exaustivo de trabalho, torna-se cada vez mais bruto, violento, comete injustiças, mete-se em negociatas. Estabelece uma rede de relacionamentos úteis que lhe garantem impunidade: conta com o apoio de Gondim, jornalista adulador, conquista Padre Silvestre e o advogado Nogueira, que o auxilia em trapaças e manipula, de acordo com os seus interesses, os políticos do local.

São Bernardo prospera e Paulo Honório contrata Sr. Ribeiro para escrituração dos livros de contabilidade; constrói uma escola para alfabetizar os empregados e, principalmente, para agradar ao governador de Alagoas. Contrata Padilha como professor, manda buscar a velha Margarida, a negra doceira que o criara, e lhe arranja moradia na fazenda _ .

Certa manhã, vivendo a satisfação da prosperidade, Paulo Honório decide casar-se, não porque estivesse enamorado por alguma mulher; a idéia de casamento lhe vem, quando percebe que necessitaria de um herdeiro para suas ricas terras. Começa, então, a elaborar mentalmente a mulher que procurava; chegou a avaliar a adequação das filhas e irmãs dos amigos. Nenhuma lhe agradava, até que conhece, na casa do juiz Magalhães, Madalena, uma professora primária. Impressionado com a moça, decide casar-se. Com a mesma energia, praticidade e determinação com que gerencia sua propriedade, toma informações sobre a vida de Madalena e, como em uma negociação, convence-a a casar-se com ele _ .

Madalena e sua tia Glória chegam à fazenda e, oito dias após o casamento, Paulo Honório se dá conta de que a rotina começa a ser alterada. Madalena, com sua delicadeza e humanidade, acode as necessidades de mestre Caetano, interessa-se pela vida dos empregados, dá opiniões sobre o trabalho precário do professor Luís Padilha, exige a compra de variados materiais pedagógicos e passa a dividir as tarefas de escrituração com Seu Ribeiro. Esse comportamento de Madalena, aos poucos, vai incomodando profundamente Paulo Honório, que a imaginava uma frágil normalista. Iniciam-se as brigas entre o casal: evidencia-se a personalidade violenta de Paulo Honório.

Desorientado por não dominar a mulher como controlava todas as pessoas à sua volta, Paulo Honório revela um ciúme excessivo; torna-se cada vez mais agressivo e expande os maus tratos a todos, que de algum modo, convivem com a mulher _ . O nascimento do filho não lhe ameniza as desconfianças; é torturado por fantasias de infidelidade, julga-se traído por Madalena.

Certa noite, durante a visita de Dr. Magalhães, Paulo Honório percebe que o juiz e Madalena conversam animadamente. Este fato lhe acrescenta mais dúvidas sobre a infidelidade da mulher. Durante a madrugada, atormenta-se por imaginar o prazer que um intelectual, como Dr. Magalhães, poderia despertar em Madalena. Compara-se ao juiz, sente-se bruto, inculto, convence-se de que a traição de Madalena era inevitável. Acusa-a grosseiramente de envolver-se com outros homens, numa cena de extraordinário ciúme _ .

No dia seguinte, encontra Madalena muito abatida, escrevendo uma carta. Aproxima-se da mulher e lê o endereço de Azevedo Gondim. Novamente, descontrola-se e exige que Madalena lhe entregue a carta. Discutem violentamente, Madalena rasga os papéis e acusa-o de assassino _ . Mais tarde, Paulo Honório acalma-se e percebe a brutalidade cometida; na verdade, sabia que Madalena era honesta. No entanto, não se esquecia do insulto. Acredita que Padilha teria revelado a verdade sobre o assassinato de Mendonça. Procura-o com a intenção de expulsá-lo da fazenda, quando o empregado lhe garante fidelidade e obediência, afirmando que Madalena soubera do fato por meio da população que contava várias histórias sobre a vida do marido.

As dúvidas sobre a infidelidade da mulher tornavam-se intoleráveis. Durante a noite, Paulo Honório passa a ter delírios: ouve passos, ruídos, convence-se da presença de amantes da mulher, enquanto esta encolhia-se na cama, não suportando tantas agressões e desconfianças. Agrava-se o sofrimento e a solidão de Madalena, que já não resiste aos ciúmes brutais e à tirania do marido. Sente-se degradada em sua dignidade, humilhada, mostra-se, inclusive, desinteressada pelo próprio filho _ .

Uma tarde, na torre da igreja, vendo Marciano procurar corujas, Paulo Honório avalia, do alto, a paisagem da fazenda. Detém o olhar nas extensas plantações, contempla com orgulho a propriedade, quando observa Madalena escrevendo. Desce da torre, confere o trabalho dos empregados, e, defronte do escritório, encontra no chão a folha de uma carta. É, então, tomado por intenso ódio e desconfiança. Lê e relê o fragmento de um texto e fica furioso por ter certeza de que se tratava de uma correspondência destinada a um homem.

Decidido acabar com aquele tormento, sai à procura de Madalena. Encontra-a serena, na saída da igreja. Exige explicações, exaspera-se, quer saber para quem a mulher escrevia. Madalena, de maneira meio estranha e desanimada, lhe diz que as outras folhas que compunham a carta estavam sobre a bancada do escritório. Em seguida, pede-lhe perdão pelos aborrecimentos e afirma que os ciúmes do marido estragaram a vida dos dois. Sugere-lhe que seja amigo de tia Glória e sai da igreja. Paulo Honório passa a noite meio entorpecido no banco da sacristia.

Na manhã seguinte, quando chega a casa, ouve gritos horríveis. Madalena suicidara-se. Havia manchas de líquidos e cacos de vidro no chão. Sobre a bancada, havia um envelope com uma carta de despedida para Paulo Honório. Faltava uma página, exatamente aquela que ele havia encontrado, no dia anterior _ .

Após a morte de Madalena, D. Glória e Sr. Ribeiro deixam São Bernardo. Tem início a Revolução de 30, Padilha junta-se aos revolucionários; Paulo Honório passa a ter dificuldades nos negócios. Os limites da fazenda estão sendo discutidos judicialmente o Dr. Magalhães é afastado do cargo. Paulo Honório está abandonado.

Assim, em meio à profunda solidão, ouvindo insistentes pios de coruja, tendo Casimiro Lopes e o cachorro Tubarão por perto, Paulo Honório compõe a sua narrativa. Sentado à mesa da sala, fumando cachimbo e bebendo café, restaura o passado e percebe nitidamente a própria brutalidade; o processo de desumanização por que passou, enfrentando a vida rude no sertão. Tem consciência de que sua vida, orientada para os interesses externos, não somente o tornou egoísta e cruel, como também destruiu estupidamente as pessoas de suas relações. Incapaz de transformar-se, Paulo Honório busca algum sentido, algum equilíbrio para sua vida, refletindo sobre recordações e escrevendo a sua narrativa.


Contador de Visitas :estatisticas gratis

Postagens mais visitadas deste blog

PROPOSTAS DIDÁTICAS COM GRACILIANO RAMOS - VIDAS SECAS

PROPOSTAS DIDÁTICAS COM GRACILIANO RAMOS - A TERRA DOS MENINOS PELADOS

ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE “MORTE VIDA SEVERINA” E “VIDAS SECAS”