VIDAS SECAS - REPORTAGEM ESTADÃO - CAPÍTULO III


  VIDAS SECAS 80 ANOS
Os resquícios de conservação do Velho Graça

Palmeira dos Índios, onde Graciliano viveu e foi prefeito aos 35 anos, guarda controversa homenagem e tem dificuldades para manter viva memória do escritor



Um busto do escritor Graciliano Ramos decora o trevo rodoviário de Palmeira dos Índios, à beira da BR-316, no limite entre o sertão e o agreste de Alagoas. No monumento, há a réplica da assinatura do escritor, em alto relevo, e uma frase transcrita de São Bernardo: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. Feita em pedra na entrada principal da cidade, a escultura descasca sob o sol de Palmeira desde a gestão Albérico Cordeiro (2001-2008), ex-prefeito responsável pela obra. Morto em 2010, Cordeiro é tido como quem mais preservou a memória do Velho Graça — forma carinhosa de tratar o conterrâneo.



Quem passa por lá percebe algo estranho, à despeito de a prefeitura ter mandado reforçar a pintura do busto dia desses. É que, desde que existe, ele mais parece uma cabeça decapitada: inicia a partir da goela, ali no finalzinho do pescoço, e termina em um cocuruto proeminente.

Mesmo com tinta nova, o Graciliano do monumento segue pálido, sem textura; o rosto achatado, traços sem simetria. O homenageado tem a boca torta, um olho maior do que o outro.

“É horrível”, reclama Ivan Bezerra de Barros, escritor de 75 anos, de cabelo e bigode brancos, muito bem aparados, considerado por vários como a maior referência de Palmeira em Graciliano Ramos.

Ex-jornalista, ex-promotor de Justiça e titular da cadeira número 39 da Academia Alagoana de Letras, Barros soube construir o prestígio. Manteve um programa de rádio na cidade e escreveu 33 obras, entre elas a biografia Graciliano Ramos Era Assim (1984), com entrevistas de amigos e familiares do homem.


Em 2015, Maceió inaugurou estátua de bronze do escritor, que estudou na capital de Alagoas Foto: Marco Antônio/ Secom Maceió

Outra estátua de Graciliano, esta de bronze, foi inaugurada em 2015 e inspira elogios. O problema é que fica à beira-mar da Praia de Pajuçara, a 140 quilômetros de distância, na capital Maceió.

Apesar de nascido em Quebrangulo, foi em Palmeira dos Índios que Graciliano casou, enviuvou, casou de novo e administrou o negócio da família. Lá, deu aula de Aritmética, Português e Francês, e escreveu os primeiros textos em que obteve reconhecimento literário. Também virou prefeito aos 35 anos. Era 1928.

Nove décadas atrás, a cidade era outra: não havia leis municipais e criava-se gado solto na rua, conforme escreveu nos famosos relatórios de gestão, enviados ao governador de Alagoas em 1929. Os escritos impressionaram o editor Augusto Schmidt, alçando-o à literatura.

Relatou: “Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão. Como ninguém ignora que se não obtêm de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros”.

Da janela da sede da prefeitura - o Palacete das Águias -, não se vê nenhum animal pastando, embora chame atenção o número de vira-latas nas calçadas. O município cresceu, tem população estimada de 74 mil pessoas. Há, por exemplo, oito faculdades, academia de crossfit e até iluminação de LED (em poucos pontos).



Encimado por um pássaro, Palacete das Águias é a sede da prefeitura de Palmeira, de onde Graciliano foi prefeito Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Mesmo assim, o saneamento básico de Palmeira chega a menos de 14% das casas e ainda há, por exemplo, registro de morte por diarreia. Recentemente, 18 das 56 escolas municipais precisaram ser escoradas sob risco de desabar nas crianças. Frente a outras cidades da região, os índices podem ser até considerados animadores.

Colada parede a parede com o Palacete, existe a loja Souza: “Calçados e acessórios”. Entre 1910 e 1920, funcionava exatamente no mesmo local a Loja Sincera, comércio de fazendas, calçados e perfumaria que Graciliano herdou do pai, Sebastião Ramos. Lá, também trabalhou de balconista e escriturador.

Não há placa ou qualquer pista que ligue o imóvel à biografia do Velho Graça. Encostada na porta da loja, a vendedora Ranyele Oliveira, de 19 anos, diz nunca ter ouvido falar na história. “Sabe que é a primeira vez que me perguntam isso?”, demonstra surpresa. “O que o pessoal comenta é que aqui era o antigo cinema.”

Ranyele não é exceção. Graciliano não é leitura obrigatória nem nos colégios municipais. Apesar de ser retratado com certa frequência em peças ou seminários, a maioria dos moradores nunca pôs a vista em uma linha sequer do conterrâneo.

Embora diga que a cidade é pacata, Ivan Barros mora em casa de muro alto, porteiro eletrônico e cerca elétrica. “Certa vez fui à Europa. Passei 20 dias em Paris, em Lisboa, aquele negócio todo”, relata. “Quando cheguei aqui, tinham pulado o muro. Levaram pouco: bujão de gás, saquearam a geladeira, fizeram banquete... Aí, me preveni.”

Mais interessados em encher o bucho, os gatunos de Palmeira não triscaram dedo em duas relíquias guardadas no escritório. A primeira: uma máquina de escrever que Graciliano usou na época de jornalista, apesar de sempre ter demonstrado preferência por anotar à mão.


Em casa, Ivan Barros mantém coleção de O Índio e máquina que contou ter ganhado da família de Graciliano Foto: Daniel Teixeira/Estadão


‘O sertão tornou-se verde, mas continua mandando para as cidades, ainda, os Fabianos, as Sinhás Vitória e os meninos’, diz Barros Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O especialista também mostra uma catatau de páginas amareladas, algumas já corroídas, que mandou encadernar. Trata-se da coleção de O Índio, com exemplares de 1921 a 1923, a segunda relíquia. Graciliano ajudou a fundar o semanário. Sob pseudônimos, era responsável por três colunas, entre elas a Traços a Êsmos.

“Estou muito preocupado porque o jornal está se puíndo, não tenho meio de conservação”, Barros conta. “Luto para preservar a memória de Graciliano, mas a minha percepção é de que ela está indo embora.”

Um episódio recente mostra bem isso. Liderado por um coronel de Exército, um grupo de intelectuais de Palmeira organizou uma feira cultural em homenagem ao Velho Graça, na Casa Museu Graciliano Ramos. O sobrado onde o romancista viveu foi aberto à visitação em 1973, mas os organizadores encontraram o local trancado. À pressas, foram alugar outro auditório.



Na frente do sobrado do escritor, hoje a Casa Museu Graciliano Ramos, maior movimentação é do comércio Foto: Daniel Teixeira/Estadão



Apesar de estar fechada, a Casa Museu ganhou pintura nova e câmeras de segurança Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Desde agosto de 2017, a casa de Graciliano não abre as portas ao público. A prefeitura diz que o espaço não recebia manutenção havia 12 anos e está interditado para obras do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), embora não se veja ninguém trabalhando no prédio. A expectativa é de que seja reaberto em dezembro.

Do lado de fora, percebe-se que o sobrado recebeu demãos de tinta — branca nas paredes; azul em janelas e portões — e algumas câmeras de segurança. Antes, o telhado estaria com infestação de cupim. Os gestores também teriam dado falta de alguns equipamentos do museu, alvos de pequenos furtos.

No início dos anos 2000, um grupo de estudiosos fez abaixo-assinado para tombar o acervo — hoje, só o imóvel é protegido. O espaço não tem vitrine climatizada, equipamento necessário à conservação. Nele, há manuscritos, cópias dos relatórios (os originais estão em Maceió) e traduções, além de pijamas, canetas, tinteiros e outros objetos. Precisavam coletar 10 mil assinaturas. Conseguiram 3 mil.

Em 2017, quando ainda estava aberta, Estado visitou Casa Museu Graciliano Ramos Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Acervo conta com objetos pessoais do escritor Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Segundo biógrafos, Graciliano preferia escrever à mão Foto: Nilton Fukuda/Estadão



Caindo aos pedaços, um anexo também está em reforma. Quando inaugurado, será o Auditório Graciliano Ramos, que a administração municipal pretende usar de teatro com capacidade para 300 cadeiras.


É fácil constatar a falta de interesse em Palmeira. Morador, o agricultor Júnior Antônio da Silva, de 56 anos, diz ter frequentado o museu vez ou outra. “Mas nem é essas coisas”, descreve. “Tem papelada, um pilão ‘véi’, bem antigo... mas as coisas boas mesmo estão todas em cidade grande.”

O anexo ao lado da Casa Museu também está em reforma e deve virar teatro Foto: Daniel Teixeira/Estadão


Cerca de 15 mil documentos compõem o Acervo de Graciliano Ramos no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). São manuscritos originais da maior parte de sua obra, recortes de produção em jornais de Alagoas, inclusive de O Índio, e do Rio, além de documentação pessoal, fotos e correspondência.

Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes tem 10 das 40 cadeiras vagas Foto: Daniel Teixeira/Estadão



Escritora e atual secretária municipal de Cultura, Isvânia Marques ajudou a fundar em 2000 a Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes (Apalca), da qual Graciliano Ramos é “paraninfo perpétuo”. Embora a instituição tenha ampliado o leque de “imortais”, permitindo a participação de outras áreas fora da literatura, só conseguiu ocupar até hoje 30 das 40 cadeiras disponíveis.


A senhora não acha uma tristeza a Casa Museu estar fechada? “É muito, eu acho também. Muita gente liga para agendar visita… Embora exista outro museu, o Xucurus, a casa é o principal atrativo daqui”, diz Isvânia, uma senhora de cabelo pintado de loiro, brincões na orelha e colar bem colorido. “Mas está ficando uma graça, vai valer a pena.”


“O traço do sertanejo continua sofrido, mas hoje é um homem mais consciente. Não é um Fabiano da vida”, afirma Isvânia Marques Foto: Daniel Teixeira/Estadão


Ex-professora, a secretária diz que cansou de trabalhar textos do autor em sala de aula e faz juras de amor a Graciliano, a quem chama extrovertidamente de Gagá. “Se eu fosse viva naquela época, ele teria se apaixonado por mim.”

Estação de trem em Quebrangulo, prevista para integrar a rota Caminhos de Graciliano, com 28 quilômetros de extensão Foto: Daniel Teixeira/Estadão



A atual gestão tem lutado para valorizar a imagem do conterrâneo, diz Isvânia. Existe a promessa de o primeiro trem turístico do Nordeste, o Caminhos de Graciliano, sair do papel até o fim do ano. Uma vez pronta, a rota com 28 quilômetros de linha férrea vai ligar o município a Quebrangulo.

Para os gestores de Palmeira, a exploração do trajeto representa uma alternativa econômica para a região, mantida à base de agricultura familiar, produção de leite e comércio, com flagrante crescimento da informalidade.

Entre os feitos já realizados, Isvânia destaca até a pintura que fizeram no busto da entrada. “Deu uma maquiadazinha, ficou até mais bonito”, defende. “A gente pensa, lá para frente, em colocar algo mais chamativo.”

A secretária sabe que muitos contestam a estátua e comenta propostas para substitui-la. “O que identifica Palmeira dos Índios? Os índios e Graciliano. Então, a gente intenciona levar esses dois elementos em um pórtico”, diz. “Aí, cada um fica dando ideia: quem sabe não faz um Graciliano com cocar?”

Com administrações anteriores, houve projeto de trocá-lo por um monumento com Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos. Expulsa pela seca, a família representaria os palmeirenses como um todo, argumentou-se na época.

No ano passado, 38 municípios de Alagoas decretaram estado de emergência por estiagem - entre eles, Palmeira. Por lá, todo conhecem quem deixou o sertão. Até o hino da cidade faz menção à saída dos seus moradores.

“Outro dia, tive de mandar meu neto para Maceió. Formou-se em Direito, mas de que adianta se aqui não tem emprego? O sertão mudou bastante de 80 anos para cá, mas continua mandando gente para a cidade”, diz Ivan Barros. “ Em Vidas Secas, Graciliano se preocupou com o drama do retirante porque, em si, ele mesmo foi um retirante.”



CAPÍTULO IV

Graciliano Ramos de Oliveira, o prefeito


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