BLOG DE RICARDO RAMOS FILHO
TEXTO EXTRAÍDO DO BLOG DE RICARDO RAMOS FILHO
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O universo silencioso de Ricardo Ramos
Ricardo Ramos Filho
Foi Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde) quem chamou Ricardo Ramos de “O Mestre do Silêncio”. O crítico literário, pensador, professor e escritor conseguiu definir bem, com poucas palavras, o estilo do autor alagoano.
Debruçado sobre sua mesa de trabalho, a mesma onde apoio hoje o computador, acostumei-me a ver meu pai em seu cotidiano. Envolto em uma densa nuvem de fumaça de cigarro ele exerceu durante anos o ofício de escritor. Para ele um trabalho como outro qualquer, exigente em termos de disciplina, planejamento, rotineiro. Dizia que se não se sentasse diariamente para escrever pelo menos cinco linhas, e que isso para ele já seria muito, jamais teria escrito nada. Que, se esperasse as condições ideais para escrever, só teria escrito meio livro. De domingo a domingo ele buscava o texto naquele canto da sala. Palavra por palavra, todas elas escolhidas com muito cuidado e esforço. Poucas e precisas. Sabia dizer sem precisar se estender demais, justificando o epíteto que lhe foi dado pelo líder católico.
Nasceu em uma cidade do agreste de Alagoas, boca do sertão, Palmeira dos Índios, em 4 de janeiro de 1929. Foi para o Rio de Janeiro com cerca de 14 anos e mudou-se para São Paulo em 1957, onde faleceu em 20 de março de 1992, mesmo dia da semana e do mês em que morreu seu pai, o escritor Graciliano Ramos.
| Heloísa e Graciliano, com o filho Ricardo, com 2 anos de idade, e Múcio, do primeiro casamento, com 11, em Palmeira dos Índios, em janeiro de 1931. |
Ricardo Ramos dizia que até determinada idade leu mais romances. Aos 12 anos recebeu mandado do Rio, como presente, a única obra de contos de Aurélio Buarque de Holanda: Dois mundos. Foi o primeiro livro que leu com dedicatória do autor. Percebeu, encantado, que a literatura podia contar sua vida. Os contos falavam de Maceió, de um menino de Maceió com relações familiares que eram as dele, mostravam problemáticas semelhantes. Aquele era o seu mundo. Se o livro se chamava Dois mundos, um era do Aurélio e o outro dele. Foi aí que nasceu o seu interesse por conto.
Começou a escrever profissionalmente como jornalista aos 15 anos de idade. Com 18, de repente, e ele nunca soube dizer muito bem por que, resolveu arriscar um conto. Depois vieram outros. Naquela época havia no Rio cerca de seis suplementos dominicais. Chegou a ter, em alguns finais de semana, contos seus em três periódicos. Nunca mais parou. O primeiro conto escrito, e ele afirmou certa vez que esperava que o esquecessem, foi Um caminhão no asfalto. Entre os 18 e 24 anos deve ter escrito cerca de cem contos publicados avulsamente em jornais e revistas literárias.
Tempo de Espera foi o seu primeiro livro. Coletânea de contos publicada pela Livraria José Olympio Editora em 1954, com capa do ilustrador Santa Rosa.
Trecho do conto: Por quê, Ziza?, que consta do livro.
A esteira e o alpendre eram o nosso mundo. Tudo o que existia fora do espaço limitado prendia-se aos sonhos, desfiados no quarto enorme, de paredes amarelas e rodapés escuros. Ali vivíamos os três: eu, minha irmã mais nova e Ziza, a empregada. Ali brincávamos, ali me apareceu catapora, um dente começou a amolecer, dias depois pendia de uma linha tinta de sangue. Mamãe fiscalizava de longe; os braços fortes de Ziza, marcados de vacinas, eram praticamente o centro de nossos receios. Temor inútil – Ziza era boa, não me recordo de que nos houvesse maltratado, ou pelo menos tivesse a intenção de fazê-lo. Os lábios vermelhos abriam-se num sorriso contínuo, estava sempre a arrumar os cabelos grossos, concertando as ondas estreitas, untadas de vaselina. E a voz suave, arrastada como as chinelas de pano, que não faziam barulho.
- Que é aquilo, Ziza?
Um riso estabanado brigava com o jeito medido, triste.
- Vagalume. Um bichinho que brilha de noite. Vive aí pelo mato.
Havia uma resposta qualquer. E Ziza aproveitava a ocasião para contar uma história em que apareciam reis, fadas e vagalumes. Os olhos grandes cintilavam, acompanhando passagens da narrativa, a voz assumia inflexões variadas, muito coloridas e muito humanas. Ela nos fez gostar de histórias, quaisquer histórias, falsas ou verdadeiras. As suas mãos gretadas e escuras nos trouxeram o primeiro livro, com muitas gravuras, povoado de bichos e anões. Pouco depois o volume estava amarrotado, cheio de nódoas, manchas de caramelos. As suas histórias eram mais bonitas: tinham estrelas, peixes azuis e cabelos compridos, louros e compridos, iguais ao da Santa Inês que havia no oratório.
Ricardo Ramos, e hoje em dia me parece estranho imaginar que isso aconteceu em um tempo ainda tão recente, pertenceu ao mundo antes do advento do computador. Ele escrevia à mão e vagarosamente. Sempre em grande batalha com o texto. Rasurando, rasgando papéis, mudando palavras, substituindo, observando problemas de exatidão, ritmo, tudo isso. Depois datilografava o trecho produzido. Continuava, então, sua história novamente à mão, voltando à máquina sucessivas vezes, até concluí-la. Sempre rabiscando em cima do material datilografado, mexendo, aprofundando, num processo muito lento. Normalmente datilografava o conto algumas vezes até considerá-lo concluído.
Era comum lá em casa ouvir meu pai lendo os contos que escrevia para a minha mãe. Ele gostava de opiniões e ela sempre foi excelente leitora, possuidora de um gosto crítico apuradíssimo. Essas leituras, desde muito cedo, me fizeram entender que as histórias muitas vezes brotavam da realidade. Certa vez, ouvindo muito de perto e calado como sempre, resolvi falar, identificar cenários e pessoas. Eu conhecia tudo aquilo que estava sendo lido. Palmeira dos Índios, meu tio-avô Clóvis, irmão de Graciliano, a gente lá nas festas de fim de ano, Natal. O conto que seria mais tarde publicado em Matar um homem, coletânea publicada em 1970, e se chamava Ano novo com meu tio, tinha referências muito claras. Papai não gostou, ficou até um pouco impaciente. Afirmou-me escrever ficção, nada do que estava lendo era real. Demorei anos para entender. Na época, com cerca de quinze anos desconfiei, não fiquei inteiramente convencido. Por que estaria ele tentando esconder uma coisa tão óbvia? Mais tarde, nas inúmeras vezes em que vi meu pai interromper seu interlocutor e agradecer pelo conto que tinha acabado de receber, sempre muito feliz ao reconhecer as possibilidades de um relato, continuei estranhando. Eu vivia encontrando em seus textos coisas conhecidas. Só bem mais tarde pude entender o zelo com que preservava seu foco ficcional. A gente, é claro, parte da realidade, mas é apenas um começo, uma ideia, o resto é criação.
Trecho do conto: Ano novo com meu tio, que consta do livro.
Vamos andando calados. A rua sem calçamento, a noite que de repente chegou. Assentando a poeira, o calor, trazendo esse gosto de jasmim. Por ele entramos. E logo cercados seguimos, agora um tanto cautelosos. Ou já estava conosco o cheiro de flor? No escuro, o passo de um homem se faz mais lento. Fica bem atrás das lembranças.
Nós caminhamos para as luzes do centro, onde me esperam vozes e rostos, cantantes, distantes, que se fingindo próximos irão acordar passados. Tem sido sempre assim. A memória que sobe à tona, como se puxada de um poço, e fica desenhando círculos. Eu me debruço a olhar esse tempo que meu tio conserva inteiro, e por alguns instantes apenas dez anos correram entre nós dois. Mas nesta rua a distância aumenta. Ele sabe onde pisa, eu não sei. Esquecidos, quietos, ermos lugares. No entanto, aqui foi minha cidade.
Continuamos. Em silêncio, o andar de um homem se parece mais ao de outro homem. Mesmo na sombra, mesmo quando um deles não sabe aonde leva os pés, acontece o parentesco. Há pouco foi em casa dele, um gesto, uma entonação, aquele jeito de rir, tudo se encadeando feito ponte lançada entre os retratos. Neste momento, é o vulto que se torna ainda mais familiar. Como se também estivesse reparando isso, ele diz qualquer coisa sobre meu pai, uma aproximação. E se cala. Nós falamos pouco, muito pouco. No retorno eu reaprendi nossa antiga maneira, não respondo nada, espero que meu tio prossiga. Ele ainda se demora na pausa, como se viesse a cruzá-la.
- Há quantos anos você não volta aqui?
- Vinte e cinco.
- É, faz tempo.
Dobramos uma esquina, nossos passos ganham a calçada. Vinte e cinco anos, um quarto de século, nessa ideia cabem a cidade e os parentes que súbito reencontro, nunca se afastaram, ou será que eu passei tanto tempo assim? Esta rua sempre teve calçada alta. As casas ficaram até um pouco menores, para que se possa abarcá-las de um só golpe de vista, não sou eu quem faço a perspectiva escolhida. Tudo no mesmo, quase tudo. É assim que desejo. Apesar de não lembrar direito a outra cidade, não saber onde estão as diferenças com a de agora.
Ricardo Ramos dizia que não podia disfarçar o seu pendor para a história curta. Achava que devia ter alma de relojoeiro. Gostava de trabalhar o período, a frase, a palavra. Citava Machado de Assis, que considerava o seu patrono: “Eu gosto de catar o escondido”. Esse, para ele, era o lema dos contistas. Queria catar o que poucos percebiam. Era a partir do pormenor de gente, de enredos, que chegava à explicação maior, à sua literatura que via como um exercício de viver, citando agora Pavese. Nunca soube precisar até que ponto a literatura o ajudava a viver, ou ajudava mesmo o leitor a viver, mas tinha certeza de que era um exercício de viver.
Foi um homem de muitos amigos e uma presença dinâmica no meio cultural paulista e por extensão brasileiro.
Lembro-me bastante de seu humor ácido e inteligente. Tinha o raciocínio rápido, suas respostas muitas vezes desconcertavam as pessoas. Não gostava muito de ser comparado ao pai, preferia falar do próprio trabalho. Como escritor queria ser respeitado e reconhecido. Certa vez uma repórter, meio que de forma grosseira, perguntou-lhe logo no início da entrevista:
- É verdade que você é filho de Graciliano Ramos?
A resposta foi imediata:
- Não sei, só quem pode garantir isso é minha mãe.
Não se dando por vencida a moça continuou:
- Como é ser filho de Graciliano?
- Não sei – insistiu novamente. Nunca fui filho de outra pessoa para poder comparar.
Nessa época ainda existia o presídio do Carandiru. Foi montada uma biblioteca para os presidiários. Como presidente da UBE (União Brasileira dos Escritores) ele compareceu à inauguração. Perguntado a respeito de como via aquela iniciativa disse:
- Fico muito feliz. Afinal o sonho de todo escritor é ter leitores cativos.
Falando a respeito da própria ironia costumava dizer que nos momentos em que ela aparecia ou estava ocultando algum aspecto de sua personalidade, que não desejava ver revelado, ou porque certos assuntos não merecem ser discutidos a sério.
Papai costumava dizer que ser casado há tanto tempo com a mesma mulher era pouco comum. Muita gente achava isso falta de imaginação, mas ele era mais otimista, considerava muita imaginação. Em uma casa muito movimentada, com três filhos, amigos de filhos, barulho, toda a rotina doméstica, conseguiu organizar-se para escrever. Todos nós respeitávamos o seu espaço. Ele se fechava e só aparecia quando podia e queria.
| Da esquerda para a direita, Rogério Ramos, Marise Ramos, Mariana Ramos e Ricardo Ramos Filho em reunião de família há dois anos. |
Muita gente, e não apenas a repórter mais afoita, se interessava em saber como era o relacionamento de Ricardo Ramos com o pai famoso, Graciliano. Ele sempre dizia que quando chegou ao Rio de Janeiro, não se lembrava fisicamente do pai. Ele tinha ido embora de Maceió, preso, deixando-o muito pequeno. Só foi conviver com ele entre 14 e 24 anos, cerca de dez anos, portanto. Até então ele tinha sido referência entendida apenas parcialmente. Só depois se consolidou a importância dele em sua formação humana, intelectual e mesmo política. Foi, por exemplo, quem insistiu que lesse em francês. Graciliano achava difícil interessar-se por literatura sem ler o idioma. Ricardo Ramos tinha consciência de que foi o pai que lhe indicou os valores formais tanto de linguagem como de composição literária. Foi vendo a postura participante do pai que entendeu como deveria ser a do escritor.
Trecho do livro de memórias de Ricardo Ramos.
Vivemos tempos de Facebook. Facilmente entramos em contato com pessoas não tão conhecidas, novos amigos virtuais. Nesse universo pude perceber o quanto Ricardo Ramos foi querido como professor. Frequentemente pessoas se identificam, dizem ter sido alunas dele, expandem-se em elogios. Falam em saudade e significância. Declaram ter sido ele referência importante, inesquecível, capaz de apontar rumos profissionais definitivos. Falam sempre com muita emoção. Um ex-aluno, outro dia, referiu-se divertido ao início de uma de suas aulas inaugurais. Primeiro ano, sala lotada de calouros e ele:
- Bem-vindos ao baixo meretrício!
Embora tenha sido um grande publicitário, e levasse muito a sério a profissão, sempre foi muito crítico com relação a ela. Autodenominava-se “publicituto”.
Gostava de jovens. Tinha grande carinho por eles. Considerava não serem a criança de ontem, nem o adulto de amanhã. Dizia que o jovem é o adulto de hoje, a nossa maioria, brasileira. Com as suas inquietações, as dúvidas e os projetos, o seu mundo que aponta para o futuro. Para ele os jovens não estavam chegando, já tinham chegado.
Deu aula nas seguintes escolas:
· Escola de Comunicação da Fundação Cásper Líbero (História da Propaganda);
· Faculdade de Comunicação Social Anhembi (Redação, Criação);
· Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (professor, diretor e diretor de cursos).
No final de sua vida tinha publicado algumas novelas juvenis e estava muito contente com a sua receptividade. Dizia que nunca tinha sido tão lido.
Foto 10 – (Capa do Livro Desculpe a nossa falha, 1988, Ed. Scipione)
Trecho do livro de juvenil de Ricardo Ramos, Desculpe a nossa falha.
Antes de chegar ao portão da escola, Sérgio falou com o sorveteiro, o guarda de trânsito e o vigilante parado na calçada. Alegre, expansivo. Abraçou uma servente que voltara de breve doença. Pulou por cima da poça d’água, chutou qualquer coisa invisível. Então encontrou o amigo, passou o braço pelo ombro dele, entraram juntos conversando.
A manhã começara um tanto fria, nublada (esquentava depois, pode crer), e as tonalidades fortes do suéter de Sérgio botavam uma nota colorida no pátio interno, com o antigo casarão à esquerda, o caminho entre plantas se dirigindo às novas construções adiante. Ele pisava em terreno conhecido, familiar. Vinha naquele cenário desde pequeno, dois, três anos de idade. Estava em casa.
Alguém chamou o colega ao lado, que se desviou, e Sérgio seguiu sozinho. Um rapaz magro, de cabelo escuro, queimado de sol. Assobiando à vontade pelos seus quinze anos.
Ao passar o segundo portão, ver à direita as casinholas do pré-primário, as escadas para a piscina em frente, mais longe, emolduradas pelas árvores altas do recreio maior, ouviu a exclamação:
- Que beleza de malha!
Sorriu e perguntou:
- Quer pra você?
O bedel riu e respondeu:
- Você já me ofereceu uma vez. Lembra?
Sérgio, sempre sorrindo, disse que sim. E mudando o tom, como se ofendido:
- Mas você não aceitou...
O homem teve um gesto de que não, não era bem assim. Para confessar:
- Eu gosto muito dela, acho linda essa malha.
- É sua. Fique com ela.
- Não brinque, Sérgio.
- Não estou brincando. É sua.
Ricardo Ramos era um homem inquieto. Falava sempre nas mudanças que aconteceram em sua vida. De cidade, de atmosfera, de profissão. Dizia que no momento em que passou do jornalismo para a propaganda houve mudança. Quando saiu de Maceió para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo também. Ao sair de um colégio católico, de padres, e em menos de um ano estar no Partido Comunista outra. A partir do momento em que passou a não acreditar, não somente em religião, mas também em um partido como solução, mais uma. Ao sentir-se em vez de crente em religião e política, um descrente, tendo que lutar contra certo ceticismo, mudou de novo. No instante em que passou a acreditar apenas no homem, novamente tinha mudado. Até chegar na crença no homem como indivíduo não inteiramente bom, mas ao mesmo tempo bom e mau.
Como escritor ganhou alguns dos prêmios mais importantes de nossa literatura:
· Prefeitura de São Paulo 1957;
· Jabuti, 1959,1961 e 1970 (Câmara Brasileira de Livros);
· Afonso Arinos, 1960/61 (Academia Brasileira de Letras);
· Câmara Municipal de São Paulo, 1962;
· Coelho Neto, 1967/68 (Academia Brasileira de Letras);
· Guimarães Rosa, 1971(Governo do Estado do Paraná, FUNDE-PAR);
· Associação Paulista de Críticos de Arte,1974.
Foi membro das Academias Alagoana e Paulista de Letras.
Publicou os seguintes livros:
Tempo de espera, contos, 1954; Terno de reis, contos, 1957; Os caminhantes de Santa Luzia, novela, 1959; Os desertos, contos, 1961; Rua desfeita, contos, 1963; Memória de setembro, romance, 1968; Matar um homem, contos, 1970; Do reclame à comunicação, ensaio, 1970; Circuito fechado, contos, 1977; As fúrias invisíveis, romance, 1974;Toada para surdos, contos, 1977; Os inventores estão vivos, contos, 1980; O sobrevivente, contos, 1984; Desculpe a nossa falha, juvenil, 1987; Contato imediato com propaganda, ensaio, 1987; Os amantes iluminados, contos, 1988; Pelo amor de Adriana, juvenil, 1988; O rapto de Sabino, juvenil, 1992; Graciliano: retrato fragmentado, memórias (obra póstuma), 1992.
Até hoje o experimentalismo atingido nos cinco contos de Circuito Fechado são estudados e comentados. Além de ser um estudioso do conto, Ricardo Ramos também inovou ao escrevê-los.
Trecho do Circuito Fechado (I).
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara, pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio.
Acostumado a encontrar meu pai nos textos escritos por ele, mesmo obedecendo a recomendação de que tudo aquilo era ficção, sempre gostei de ver nesses contos uma rotina próxima da real. Alguns hábitos por mim mais conhecidos, aqueles retratados em horários em que ele estava em casa, outras mostrando Ricardo Ramos em outros ambientes, longe de mim. Seu texto econômico e preciso. Silencioso. Volto ao Tristão de Athayde para definir melhor:
“O silêncio talvez seja o segredo do seu estilo. Tanto o silêncio das pessoas e das palavras, como o silêncio das situações. Não há uma nota dissonante. Nem uma frase enfática. Nem um diálogo estridente. Pode-se dizer que Ricardo Ramos se firma como a demonstração literária autêntica de que a plenitude da palavra é o silêncio”.
janeiro de 2013